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Avaliando um tratamento médicoSubmitted by rau on 28 November 2011
Traduzido por Aida Guerra
Historicamente, os médicos verificavam se um tratamento funcionava ou não testando-o nos seus doentes. Assim, para a mesma doença, podiam comparar as respostas dos pacientes ao tratamento novo com as respostas a outros tratamentos, bem como é que a resposta variava entre os doentes. No entanto, se os doentes de facto recuperassem da doença não havia modo de afirmar se tal se devia ao tratamento ou a qualquer outro factor.
O desenvolvimento de ensaios aleatórios controlados No século XIX, cientistas propuseram um método de controlar exactamente o que se passava e registar quaisquer mudanças nas condições do paciente. Nestas experiências controladas havia dois grupos de pacientes – o grupo de estudo, que recebia o novo tratamento, e o grupo controlo, que recebia o placebo (um medicamento inerte) ou um tratamento estabelecido. Os pacientes eram, então observados e os resultados de ambos os grupos (como se cada paciente sobreviveu ou morreu) eram registados e comparados.
No entanto, os ensaios ainda podiam ser deliberadamente adulterados para provar que o tratamento funcionava através da inclusão de mais pacientes doentes no grupo de estudo do que no grupo de controlo. A solução para tal, primeira usada pelo UK’s Medical Research Council nos anos 40 no seu estudo das vacinas para a tosse coqueluche, foi escolher aleatoriamente os doentes que iriam receber o novo tratamento e os que iriam receber o tratamento de controlo. Ensaios controlados com alocação aleatória aos dois grupos de estudo ficaram conhecidos como ensaios aleatórios controlados ou RCTs. Com a aleatoriedade, acaba-se não só com a distribuição aleatória de pacientes doentes e saudáveis pelos dois grupos mas também se alcança uma distribuição aleatória dos factos conhecidos (mas que podem influenciar a saúde do doente e, por conseguinte, o resultado do tratamento). Assim - porque, em teoria, a única diferença entre os dois grupos é se recebem ou não o tratamento que está a ser testado – pode-se assumir que qualquer diferença nos resultados é, possivelmente, devido ao tratamento e a nada mais. Actualmente, os RCTs são universalmente usados na investigação clinica para avaliar novos tratamentos. Evidência muda a prática médica Antes de 1994, os médicos recomendavam aos pacientes com dores nas costas para descansarem na cama. No entanto, após rever todas as evidências disponíveis, o Clinical Standards Advisory Group apercebeu-se que o descanso na cama não era tão benéfico e que talvez fosse mesmo prejudicial. Isto levou a uma radical mudança no tratamento, sendo aconselhado aos doentes permanecerem activosw1. Desenvolvendo e analisando RTCs Mais pessoas, mais poder Está-se a pensar testar um tratamento à pressão sanguínea atrás de um RCT, é necessário desenhá-lo com cuidado. Uma questão importante: Quantos pacientes serão incluídos no estudo? Tal depende de quão grande é o efeito que o novo tratamento tem: quanto maior o efeito, menor o número de pacientes necessários para distinguir as flutuações aleatórias que o estudo possa ter. É evidente que é o efeito do tratamento que se pretende estudar num RCT. No entanto, antes de iniciar-se um RCT tem-se já algumas indicações de como o novo tratamento funciona, através, por exemplo, de testes de laboratório de pequena escala. Isto permite estimar a dimensão do efeito do tratamento.
Existem fórmulas estatísticas para determinar o tamanho da amostra necessária para o estudo de forma aumentar a probabilidade de detectar o efeito desejadow2. Para o tratamento da pressão arterial, estas fórmulas indicas que são necessários 64 pacientes em cada grupo para detectar uma diferença de 5 mmHgw3. Quão diferente é o diferente? O ensaio segue o seu rumo, os participantes têm vindo a ser monitorizados, e tem-se registado as diferenças na pressão sanguínea entre os pacientes dos grupos de estudo e de controlo. Graças à aleatoriedade da amostra, sabe-se que os dois grupos são comparáveis antes do ensaio. Então, ou o tratamento tem um efeito ou algum evento surpreendente ocorreu: o tratamento não teve qualquer efeito e as diferenças registadas no RCT devem-se ao mero acaso. Imagine-se que a média da pressão sanguínea no grupo de estudo é mais baixa 5,2 mmHg do que a média registada no grupo de controlo. Como é que se decide se esta diferença é por acaso ou se se deve ao efeito real do tratamento? Apesar de tudo, vários factores podem fazer variar pressão sanguínea e nem todos podem ser controlados no RCT.
Mas quão confiante é o confiante? Geralmente, os estatísticos afirmam que um grau de 95% de confiança é bom o suficiente, isto significa que estão preparados para viver com o facto de que 5% das vezes (ou 1 em cada 20) estarem errados de que o efeito se deve ao acaso e não ao tratamento. Para se ter a certeza de que se tem o valor correcto, medem-se mais e mais pacientes, mas a única maneira de ter 100% de certezas é medir a população toda. Se o resultado obtido não for estaticamente significativo, uma das questões fundamentais a colocar é se o ensaio envolvia pacientes suficientes. Talvez o efeito do tratamento seja menor ao inicialmente estimado – com uma amostra maior, pode-se detectar as diferenças entre os dois grupos. Aplicando RCTs ao mundo real Um RCT bem desenhado e devidamente analisado é uma ferramenta poderosa para a investigação médica – fornecendo aos médicos a informação necessária para tomar as decisões correctas no tratamento de pacientes. Não obstante, os RCTs tem limitações. Primeiro, não é suficiente saber se o tratamento faz uma diferença estatisticamente significativa. É, também, necessário saber se a diferença clinicamente é significativa – por exemplo, a diminuição da pressão sanguínea em 5 mmHg faz uma diferença na saúde e bem-estar do paciente? No fim das contas, no exemplo descrito, o tratamento continua sem reduzir a pressão sanguínea para os valores normais de 90-120 mmHg. Para avaliar se o tratamento é clinicamente relevante, os médicos poderão ter de se direccionar para outros tipos de investigação. Uma outra limitação dos RCTs é o facto de os pacientes envolvidos no ensaio não representarem a população real a ser tratada. Porque os ensaios pretendem controlar tantos factores quanto possível, normalmente possuem critérios restritos de inclusão e exclusão. Por exemplo, mulheres grávidas não são incluídas devido aos potenciais riscos para o bebé, isto implicou que ninguém percebesse que a talidomida provocava defeitos no desenvolvimento embrionário até ser utilizada na prática médica geral no final dos anos 50w4. Ainda há a questão de como os RCTs são reportados. Ninguém quer publicar más notícias, em particular pessoas que passaram tempo e esforço a desenvolver um novo tratamento. Por isso, historicamente, os investigadores não publicam ensaios que não mostraram resultados ou se o antigo tratamento era mais eficaz. Alguns investigadores sem escrúpulos também reportaram resultados que seleccionam ou incompletos, o que fazia com que um tratamento parecesse melhor do que na realidade era. A comunidade científica tem caminhado no sentido de parar a manipulação de resultados através da criação de companhias e do registo do investigador no início do ensaio, assim é mais difícil esconder resultados desfavoráveis, embora ainda não exista a obrigatoriedade de reportar todos os resultados obtidos. Os jornais têm, também, estandardizado a informação que requerem para a submissão dos manuscritos dos investigadores, o que faz com que seja mais difícil esconder maus resultados. Acima de tudo, os RCTs são caros e morosos. Como resultado, muitos ensaios não são conduzidos, ou o tamanho das amostras e a sua duração são limitadas. Tal pode significar que um ensaio não é suficientemente poderoso para detectar se o tratamento é efectivo quando de facto o pode ser. Pequenos ensaios podem, também, não diagnosticar importantes efeitos adversos (e que podem ser raros), e de detectar os efeitos a longo prazo.
Desde os anos 40, o uso de RCTs tem mudado significativamente a prática médica. Os médicos já não são dependentes das suas próprias observações mas podem confiar numa avaliação rigorosa para assegurar que os benefícios do novo tratamento ultrapassam os riscos. Evidências podem mudar pontos de vistas Uma revisão sistemática dos resultados para a minociclina, um antibiótico fortemente promovido para o combate à acne, foi recentemente conduzida para investigar a sua eficácia e segurança. Um efeito secundário da minociclina são os potenciais e fatais problemas de auto-imunidade do fígado. Os problemas são raros e podem ter várias causas. Muitos médicos não têm conhecimento sobre tal e, mesmo que tenham, a ligação pode não ser necessariamente feita pela droga. Foi só quando toda a informação foi revista junta é que a ligação foi estabelecida. Uma revisão sistemática mostrou que não havia evidências que a minociclina era melhor a tratar a acne que qualquer outro tratamento existente. Dados os riscos, os autores da revisão concluíram que não deveria ser usado preferencialmente em relação a qualquer outro tratamento (Garner et al., 2003). Agradecimentos Se gostou de ler este artigo mas gostaria de aprender mais sobre a matemática envolvida, leia a versão estendida e original deste artigow3, presenta na revista Plusw7, uma revista online gratuita que abre a porta para o mundo dos matemáticos com toda a sua beleza e aplicações. Referências Garner SE (2003) Minocycline for acne vulgaris: efficacy and safety. Cochrane Database of Systematic Reviews 1: CD002086. doi: 10.1002/14651858.CD002086 Referências da Internet w1 – Para mais informações sobre descanso na cama, veja a secção ‘management’ do artigo ‘Low back pain and sciatica’, no sitio da internet do Patient UK (www.patient.co.uk) ou use o a ligação: http://tinyurl.com/y9gghww w2 – Pode ler uma boa explicação de Jerry Dallal sobre como o tratamento de dados e o tamanho da amostra pode afectar o poder estatístico em Little Handbook of Statistical Practice: www.jerrydallal.com/LHSP/sizenotes.htm w3 – Para uma leitura do original deste artigo, incluindo mais detalhes da estatistica veja: Garner S, Thomas R (2010) Evaluating a medical treatment – how do you know it works? Plus Magazine. http://plus.maths.org/latestnews/jan-apr10/rct w4 – Para saber mais sobre o desastre da talidomida e sobre as recentes investigações relacionadas com talidomida e a formação do limbo veja: Zimmer C (2010) Answers begin to emerge on how thalidomide caused defects. New York Times 16 Mar: D3. www.nytimes.com w5 – A Cochrane Collaboration é uma rede internacional de pessoas que ajudam técnicos de saúde, políticos e pacientes, na pratica de tomar boas decisões no que diz respeito a cuidados de saúde. Veja: www.cochrane.org w6 – O The National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE) é uma organização independente que fornece orientação a nível nacional, promovendo e prevenindo boa saúde e tratando a má saude. Veja: www.nice.org.uk w7 – Para aprender mais sobre Plus, a revista gratuita online, visite: http://plus.maths.org Recursos Para uma breve descrição das quarto fases de um ensaio clinico, veja a informação em: Wynne K, Bloom S (2007) Oxyntomodulin: a new therapy for obesity? Science in School 6: 25-29. www.scienceinschool.org/2007/issue6/oxyntomodulin Ledford H (2010) Companies pledge to make more trial data public. Nature News 15 Jun. doi: 10.1038/news.2010.299. Para ouvir o podcast que acompanha a versão original deste artigo ((Plus podcast 22, February 2010: Evaluating a medical treatment), visite: http://plus.maths.org/podcast A Sense About Science produziu um guia útil sobre interpretar reivindicações médicas na imprensa (“Eu não tenho nada a perder tentando “). Pode ser descarregado gratuitamente a partir do sítio da internet da Sense About Science (www.senseaboutscience.org.uk) or via the direct link: http://tinyurl.com/63zv4l Freiberger M (2010) Medical research plagued by bad reporting. Plus Magazine. http://plus.maths.org/latestnews/jan-apr10/reporting Plus Magazine oferece uma gama de artigos, podcasts, e actividades de sala de aula sobre como abordar a matemática por trás da saúde e da medicina: “Sabes o que é bom para ti?” Veja: http://plus.maths.org/wellcome Se gostou de ler este artigo, pode consultar outros artigos da Science in School relacionados com Medicina. Ver: www.scienceinschool.org/medicine Dr Sarah Garner é directora associada para a investigação e desenvolvimento no National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE)w6, cujas recomendações para a comunidade médica se baseiam em revisões sistemáticas. Rachel Thomas é co-editora da revistaw7. Opinião O artigo apresenta uma visão sobre a medicina moderna e baseada em evidências, que abrange a rota muitas vezes esquecida e raramente compreendida do desenvolvimento de medicamentos para o tratamento médico bem-sucedido. Métodos estatísticos e os seus problemas são discutidos, oferecendo oportunidades interdisciplinares de ensino a alunos com idades superiores a 14 anos. Está cheio de tópicos interessantes para discussão com alunos mais velhos e professores de outras áreas disciplinares. Por exemplo:
Pegando no exemplo da pressão sanguínea e como esta varia, a turma poderá medir a pressão sanguínea e ver como esta varia de aluno para aluno. Poderiam ainda correr para cima e para baixa em escadas durante alguns minutos e ver como tal faz varia a pressão sanguínea de uma pessoa. Perante este nível de variação, de que forma os investigadores determinam o efeito de drogas para baixar a pressão sanguínea? O artigo pode ainda ser usado para desencadear actividades de maiores dimensões. Por exemplo, poderiam ser dados aos alunos artigos sobre um ensaio clinico ou sobre a “droga maravilhosa”, talvez relacionada com as suas condições familiares, como enxaqueca, intolerância à glucose ou alergias. Em grupos, os estudantes poderiam usar livros, internet e outras fontes de informação para pesquisar:
Com base nesta investigação, cada grupo de alunos poderá, então, escrever o seu próprio artigo de jornal sobre a investigação clinica. Os alunos acham que o artigo do jornal correcto? Se não, porquê? Para a maioria dos professores, o artigo também pode ser uma fonte valiosa de informação sobre a história da investigação médica e de ensaios aleatórios controlados. Friedlinde Krotscheck, Áustria
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