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Selecção natural a nível molecularSubmitted by rau on 10 June 2010
Traduzido por Artur Melo
Quando os humanos saíram pela primeira vez de África, há cerca de 150 000 anos, estabelecendo-se nos vales do Tigre e do Eufrates, navegando pelas ilhas da Indonésia e migrando através do estreito de Bering para a América, encontraram muitos desafios. Vindas das savanas quentes e secas, as populações tiveram que se adaptar às condições locais, e, consequentemente, ao longo das gerações, a fisiologia e a aparência foram mudando (Harris & Meyer, 2008). A pele das pessoas tornou-se mais clara depois de terem vivido em regiões menos ensolaradas (Lamason et al., 2005). As populações que bebiam leite de animais domesticados mantiveram a capacidade de digerir a lactose durante a fase adulta, uma característica perdida logo após a infância nos grupos que não bebiam leite (Tishkoff et al., 2007). As populações que comiam alimentos ricos em amido produziam mais amilase salivar, a enzima que intervém na degradação do amido (Perry et al., 2007). ![]() Map-of-human-migrations.jpg:Mapa mundial das migrações humanas, com o Pólo Norte no centro. África, a origem da migração, está no canto superior esquerdo, e a América do Sul à direita. Os padrões de migração baseiam-se em estudos de ADN mitocondrial (matrilinear). Os números representam milhares de anos até ao presente. A linha azul representa a área ocupada por gelo e tundra durante a última idade glaciar. As letras são os haplogrupos de ADN mitocondrial (linhagens maternais puras); os haplogrupos podem ser usados para definir populações genéticas e apresentam frequentemente um padrão geográfico. Por exemplo, são divisões comuns para haplogrupos de ADNmt as seguintes: Áfricano: L, L1, L2, L3, L3 Médio Oriente: J, N Sul Europeu: J, K Europeu em Geral: H, V Norte Europeu: T, U, X Ásiático: A, B, C, D, E, F, G (nota: M é constituída por C, D, E, e G) Americano Nativo: A, B, C, D, e por vezes X. Clique na imagem para ampliar Imagem cortesia de Avsa; origem da imagem: Wikimedia Commons Supõe-se que pelo menos algumas destas modificações tenham sido consequência da selecção positiva (ver glossário dos termos em itálico). Isto significa que em determinado ambiente (a pressão selectiva) no passado, os indivíduos que apresentavam uma sequência de ADN vantajosa sobreviveram e deixaram mais descendentes, relativamente aos indivíduos com uma sequência diferente, menos benéfica. Actualmente, usando as sequências genómicas de várias espécies, incluindo os humanos e os seus parentes evolutivos mais próximos, os cientistas conseguem comparar caracteres e sequências de ADN de populações ou espécies com diferentes nichos ecológicos e de diferentes meios ambientes, para identificar quais as sequências que terão participado nas adaptações. Este estudo, por outro lado, permite aos investigadores pesquisar a função de determinada sequência de ADN e o seu potencial valor adaptativo para um organismo.
Uma das hipóteses, que estabelece que a pele clara favorece a produção de vitamina D, é apoiada pela observação de que pessoas de pele escura, que vivem em latitudes elevadas, sofrem de deficiência de vitamina D. Além disso, a pele clara é mais sensível aos efeitos nocivos da luz solar: a maior exposição à luz solar está relacionada com o aumento de incidência de cancro da pele em pessoas de pele clara. Por isso, a pele clara em populações humanas, que vivem em latitudes superiores, pode ser um compromisso evolutivo entre a protecção aos efeitos carcinogénicos da luz solar e a permissão de produção suficiente de uma vitamina essencial.
![]() Comparação da distribuição da malária (esquerda) e da anemia falciforme (direita) em África Imagem cortesia de Anthony Allison; origem da imagem: Wikimedia Commons Outro exemplo que demonstra o valor adaptativo de um carácter humano está relacionado com um fragmento do cromossoma 17, que se sabe ter estado invertido nos nossos antepassados há mais de três milhões de anos (Stefansson et al., 2005). O facto desta variante se ter espalhado pelas populações europeias, sugere que ela foi positivamente seleccionada – conferiu vantagem aos indivíduos que a possuíam. Através da determinação do genótipo de quase 30 000 islandeses, os cientistas que investigaram a hipótese conseguiram determinar que, durante os últimos 80 anos, indivíduos que possuíam a sequência alterada tinham em média 3.2% mais descendentes por geração do que indivíduos com a sequência normal, uma explicação plausível para como a alteração se espalhou tão rapidamente. Por exemplo, a cor do pêlo no rato Oldfield, Peromyscus polionotus, está de acordo com a cor do solo do habitat, fornecendo camuflagem. Os ratos que vivem nas areias brancas das praias da Florida são muito mais claros que os ratos, da mesma espécie, que vivem no interior. O valor adaptativo desta característica foi demonstrado experimentalmente há mais de 30 anos: ratos com pêlo que combina com a cor do solo eram menos frequentemente comidos pelas corujas que os ratos menos camuflados. Porém, os cientistas só recentemente identificaram os ‘loci’ genéticos que suportam este carácter adaptativo (Hoekstra et al., 2006): a variação da cor do pêlo depende fundamentalmente de vários alelos do gene McR1. A proteína codificada por este gene age como interruptor bioquímico que controla a produção tanto de eumelanina, um pigmento escuro na pele, como de feomelanina, um pigmento claro. Os diferentes alelos do gene McR1 activam a via de produção de pigmentos de forma diferente, favorecendo a produção de um pigmento ou do outro.
Mas ao sequenciar parcialmente as amostras intermédias, os cientistas descobriram a ordem pela qual as alterações devem ter ocorrido. Através de testes da resistência bacteriana à vancomicina in vitro, em diferentes amostras, conseguiram relacionar determinadas alterações genéticas com os efeitos no crescimento e resposta das bactérias ao medicamento. Por exemplo, a diferença entre a primeira e a segunda amostras de bactérias consistia na substituição de seis nucleótidos (alterações nas ‘letras’) em dois genes. Estas seis mutações foram claramente vantajosas: quadruplicaram a tolerância da bactéria à vancomicina, permitindo às bactérias que possuem estas mutações sobreviver e reproduzir-se melhor, tornando-se mais comuns no corpo do paciente. Vinte e seis mutações posteriores duplicaram a tolerância, produzindo efectivamente uma estirpe de S. aureus tolerante à vancomicina (Mwangi et al., 2007). Em suma, investigar a base molecular da evolução adaptativa em populações no estado selvagem não é fácil. Os desafios incluem a definição das pressões selectivas, a identificação das sequências de ADN que sustentam os caracteres associados, medir as aptidões individuais, e encontrar explicações mecanísticas para a influência das alterações da sequência nos caracteres adaptativos. Contudo, utilizando organismos-modelo e inovações tecnológicas recentes, estas investigações estão já a tornar-se exequíveis, aumentando o nosso conhecimento em como determinadas alterações a nível genético permitem aos organismos adaptar-se ao seu meio ambiente. Valor adaptativo: um carácter possui valor adaptativo se permite ao indivíduo sobreviver e reproduzir-se melhor, num dado ambiente, que os indivíduos que não apresentam esse carácter. Mais formalmente, um carácter é considerado como adaptativo se aumentar a sua aptidão (fitness) Alelo: uma variante de um gene. Aptidão: um termo formal de difícil definição usado em biologia evolutiva e genética de populações; refere-se à quantidade média de descendentes ao longo de uma geração associados a um genótipo, comparada com outro genótipo, numa população. Assim, genótipos que produzem mais descendentes apresentam maior aptidão. Para uma boa perspectiva global sobre aptidão e genótipo, ver Wikipediaw1. Genoma: todo o ADN de um organismo. É normalmente associado ao ADN nuclear, em oposição ao ADN mitocondrial ou dos plastos. Para mais informações, ver ‘What is a genome’ no website da ‘National Library of Medicine’ dos EUAw2. Selecção positiva: a selecção natural é um dos mecanismos de evolução; relata a sobrevivência e reprodução diferencial de indivíduos em determinado ambiente. A selecção natural designa-se ‘positiva’ quando estimula determinados caracteres que ajudam os indivíduos que os possuem a sobreviver e a reproduzir-se melhor que os outros. Pressão selectiva: uma variável do ambiente (por exemplo, temperatura; presença de parasitas; predação ou agressão por parte de elementos da mesma espécie) que impõe a sobrevivência e reprodução diferencial dos indivíduos. Carácter: um ou vários aspectos das caraterísticas de um organismo (por exemplo, altura; resistência a antibióticos; capacidade de ver cores ou de enrolar a língua). Agradecimentos O autor agradece a David Hughes, Mehmet Somel e Ania Lorenc pelos comentários úteis ao artigo. Referências Harris EE, Meyer D (2006) The molecular signature of selection underlying human adaptations. American Journal of Physical Anthropology 131(S43): 89-130. doi: 10.1002/ajpa.20518 Hoekstra H et al. (2006) A single amino acid mutation contributes to adaptive beach mouse color pattern. Science 313: 101-104. doi: 10.1126/science.1126121
Lamason RL et al. (2005) SLC24A5, a putative cation exchanger, affects pigmentation in zebrafish and humans. Science 310: 1782-1786. doi: 10.1126/science.1116238 Mwangi MM et al. (2007) Tracking the in vivo evolution of multidrug resistance in Staphylococcus aureus by whole-genome sequencing. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 104: 9451-9456. doi: 10.1073/pnas.0609839104 Perry GH et al. (2007) Diet and the evolution of human amylase gene copy number variation. Nature Genetics 39: 1256-1260. doi: 10.1038/ng2123
Stefansson H et al. (2005) A common inversion under selection in Europeans. Nature Genetics 37: 129-137. doi: 10.1038/ng1508
Tishkoff SA et al. (2006) Convergent adaptation of human lactase persistence in Africa and Europe. Nature Genetics 39: 31-40. doi: 10.1038/ng1946
Web references w1 – Para um bom resumo dos termos ‘aptidão’ e ‘genótipo’, ver Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Fitness_(biology) and http://en.wikipedia.org/wiki/Genotype w2 – Para mais informação sobre genomas e sobre o Projecto Genoma Humano, ver ‘What is a genome’ no website da US National Library of Medicine: http://ghr.nlm.nih.gov/handbook/hgp/genome Recursos Se achou este artigo interessante, pode querer ler outros artigos da Science in School sobre evolução:
Para mais informações sobre a malária, ver:
Para saber mais sobre a estrutura do amido, que a amilase salivar ajuda a degradar, ver:
Jarek Bryk é investigador de pos-doutoramento no Max Planck Institute for Evolutionary Biology em Plön, Alemanha, onde procura localizar e analisar genes adaptativos em ratos. Opinião O artigo relata diversos exemplos interessantes de adaptações evolutivas a nível molecular em humanos. É abordada a dificuldade em clarificar relações causais entre sequências de ADN adaptativas e a aptidão do indivíduo, em humanos, e a necessidade de utilizar outros organismos em experiências. O artigo fornece material excelente para questões orientadas para a compreensão da selecção natural e da aptidão em humanos e organismos usados em laboratório:
Este artigo também permite aos alunos pesquisar a ligação entre ADN, sequência de aminoácidos, estrutura e função das proteínas na anemia falciforme. O texto é adequado para orientar a discussão em sala de aula sobre métodos e problemas associados com a investigação das bases moleculares das relações evolutivas e sobre a ética da utilização de populações humanas em testes genéticos. Estudos interdisciplinares poderão ser organizados em torno da história da ciência e da genética de populações evolutiva. Mary Brenan, Reino Unido
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