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Sono e aprendizagem
Submitted by sis on Fri, 2007-03-16 17:37.
Biology | Issue 3 | Portuguese | Science | Science topic
Traduzido por Ana Luísa Carvalho
A minha avó costumava dizer que uma boa noite de sono era essencial para a aprendizagem. Ela insistia mesmo que o sono antes da meia-noite era o melhor. Normalmente, as crianças não se importam de ir para a cama quando têm sono, mas os adolescentes recusam-no como parte da sua emancipação sobre a influência parental. E a nossa sociedade parece contribuir para isso: hoje em dia, dormimos menos 20% do que os nossos antepassados, porque trabalhamos mais horas e procuramos actividades sociais nocturnas (Hargreaves, 2000). Todos sabemos que uma noite de sono tardia ou a perda regular de pequenos períodos de sono dificultam a actividade cognitiva. Estima-se que o cansaço seja um factor importante em um terço dos acidentes de viação e que seja a primeira causa de acidentes fatais na faixa etária dos 18 aos 25 anos de idade. Mas dormir pouco não coloca apenas a própria vida em risco. Um inquérito anónimo em São Francisco revelou que mais de 40% de funcionários hospitalares admitiram que, por decisões erradas associadas a cansaço, causaram a morte a pelo menos um paciente. Um indicador simples de privação de sono é a tendência para adormecer durante o dia. Isto acontece aos alunos durante as aulas, aos estudantes sobre os livros de estudo, às pessoas que viajam ou às pessoas idosas em frente ao televisor. A privação de sono é um fenómeno comum e, para além das suas consequências potencialmente fatais, afecta-nos na nossa capacidade de memorizar e, consequentemente, na capacidade de aprender. A consolidação da memória e a apreensão súbita Nos últimos anos, os cientistas descobriram que o sono é mais do que uma simples regeneração do nosso sistema nervoso. Durante o sono, dá-se a activação do processo de aprendizagem (Huber et al., 2004), essencial para a formação da memória a longo prazo. A memória inicial, que se forma assim que aprendemos uma nova tarefa, é susceptível a interferências. Ao fim de um tempo específico, inicia-se um processo automático designado de consolidação da memória, que estabiliza essa memória. A consolidação da memória prossegue durante o sono, mas levando ao efeito adicional de aumento da memória. Como consequência, o nosso cérebro funciona melhor após uma sesta e, ainda melhor, após uma noite de sono (Stickgold, 2005). Além disso, se nos encontramos empenhados na procura de uma solução para um problema complicado, enquanto dormimos o nosso cérebro continua a trabalhar na procura dessa solução. Como resultado, podemos sentir uma súbita compreensão de um fenómeno, uma apreensão súbita, às vezes induzida por um sonho. Mais adiante, serão descritas duas experiências que avaliam o efeito do sono sobre a consolidação da memória e sobre a apreensão súbita. O que acontece ao nosso cérebro enquanto dormimos? O hipotálamo, como orgão regulador central do sistema nervoso autónomo, controla os ritmos circadianos (o relógio biológico) da nossa temperatura corporal, da libertação de hormonas, do apetite e do sono. Contém um interruptor neuronal que regula os “nervos do despertar” e os “nervos do sono”. Uma transição súbita para o modo de sono (adormecer) significa que o sistema nervoso induz uma inibição dos nervos do despertar. O interruptor é estabilizado por um terceiro grupo de neurónios, caso contrário, acordaríamos frequentemente durante a noite (Saper et al., 2005). Uma forma pictórica de compreender o mecanismo neuronal do sono, é imaginar três crianças num balancé. Duas delas, sentam-se cada uma num dos lados da trave, balançando para cima e para baixo – o interruptor. A terceira criança senta-se em cima do eixo. Quando muda o seu peso para um dos lados da trave, pára o movimento – o estabilizador. Este sistema dinâmico gera as diferentes fases de sono, já conhecidas: o sono de movimento rápido dos olhos, sono REM (“rapid eye-movement”) durante o qual ocorrem os sonhos, e o sono não-REM, com as fases de sono leve I e II e de sono profundo III e IV. Uma noite de sono é caracterizada por ciclos de 90 minutos das fases de sono profundo e de sono leve. Um período inicial longo das fases de sono III e IV é seguido por um período curto de sono REM e pelas fases I e II. Ao longo da noite, as fases de sono profundo tornam-se mais curtas e as fases de sonho tornam-se mais longas. Parece haver dois lados na função fisiológica do sono. Primeiro, o sono não-REM é um período pouco exigente em termos metabólicos, pelo que os níveis energéticos de adenosina trifosfato (ATP), gastos enquanto estamos despertos, são repostos. O produto da degradação do ATP, adenosina, actua como agente fisiológico do sono, ao activar directamente os neurónios promotores do sono. Segundo, o sono é fundamental para a flexibilidade neuronal. Durante o sono, enquanto algumas ligações acidentais entre neurónios são eliminadas, outras ligações significativas são reforçadas. Todas as diferentes fases do sono possuem implicações na aprendizagem dependente do sono. A consolidação da memória dependente do sono O efeito do sono na aprendizagem é mais facilmente quantificado se estudarmos a aprendizagem não-consciente. Isto pode ser feito por intermédio de experiências que testam as capacidades motoras, tais como usar um teclado ou traçar uma linha exibida num monitor de computador, ou testando capacidades perceptivas, tais como diferenciar entre barras diagonais e horizontais, em planos diferentes.
Curiosamente, o sono só ajuda se não aprendermos demasiado de uma só vez e usando o mesmo tipo de memória. Se, durante a experiência de digitar, introduzirmos uma segunda sequência de aprendizagem, imediatamente após a primeira sessão de treino, o sono induz melhoramentos apenas na capacidade de digitar a segunda sequência (Walker et al., 2003). Diferentes tempos de treino demonstram que a consolidação da memória atinge uma primeira fase de estabilização no período de 10 minutos a 6 horas após a aprendizagem, e só após este período é que se torna resistente a interferências por parte de outras memórias. Contudo, pequenos períodos de treino (como na situação de repetição da experiência) retornam a memória a um estado lábil, novamente vulnerável a interferência por parte de um padrão motor competidor, em busca de consolidação. Não há forte evidência científica de que exista uma consolidação da memória, dependente do sono, para eventos (o que ocorreu ontem) e factos (o nome de um colega de trabalho). Contudo, nos sujeitos a que se pede que memorizem sílabas desprovidas de sentido, ou para encontrarem associações de palavras, o “deitar cedo” (rico em sono profundo) favorece a estabilização desta “memória declarativa” (Stickgold, 2005). O sono e a apreensão súbita A apreensão súbita é uma forma de aprendizagem cognitiva complexa. James Watson, um dos descobridores da forma de hélice dupla do ADN, tornou-se um exemplo de como o sono pode induzir a apreensão súbita. Em 1953, quando se dedicava ao problema do emparelhamento das bases, questão essencial para a elucidação da estrutura do ADN, James Watson convenceu-se que havia resolvido esse problema, propondo o emparelhamento de igual-para-igual das quatro bases adenina, guanina, citosina e timina, por intermédio de ligações de hidrogénio. A sua tese foi rapidamente contestada pelos seus colegas cristalógrafos por duas razões. A primeira, as bases guanina e timina estariam provavelmente na configuração ceto- (os livros de texto mostravam apenas a configuração enol-); segunda razão, a regra de Chargaff diz que a proporção de adenina no ADN iguala a de timina, enquanto que a de guanina iguala a de citosina. Mesmo confrontado com estas evidências, Watson não descobriu a solução nesse mesmo dia, embora se tivesse dedicado a cortar, em cartão, modelos das quatro bases. Contudo, na manhã seguinte ele escreve: “Subitamente, apercebi-me que um par adenina-timina, mantido por ligações de hidrogénio, possuía uma forma idêntica ao par guanina-citosina [...] Todas as ligações de hidrogénio pareciam formar-se naturalmente [...] a regra de Chargaff surgia agora como uma consequência da estrutura do ADN em hélice dupla” (Watson, 1980). Nascia assim a hélice dupla de Watson e Crick. Wagner e colegas elaboraram um teste com o objectivo de determinar, com exactidão, o momento de ocorrência de apreensão súbita, no processo de aprendizagem (Caixa 2; Wagner et al., 2004). Os sujeitos usam um algoritmo padrão (composto de duas regras simples) para reduzirem uma sequência de oito dígitos a uma solução final. Eles não sabem que existe um atalho simples. A percentagem de sujeitos que, ao repetir o teste, descobrem este atalho ou regra escondida, é 22% no grupo que foi mantido acordado, contra 60% no grupo que dormiu. Sendo assim, descobrir uma regra complexa, uma das actividades cognitivas humanas mais avançadas, torna-se muito mais fácil após uma noite de sono, mesmo que o sujeito a ser testado ignore que existia uma regra a ser descoberta. Conclusão A mais recente investigação sobre sono e aprendizagem conferiu rigor científico aos conselhos da minha avó. Esta informação combinada com os indicadores óbvios de que a privação de sono é uma realidade na nossa sociedade, leva-nos a repensar os nossos hábitos de sono. O conhecimento sobre as necessidades de sono do nosso cérebro ajudar-nos-á a aprender, trabalhar e viver em harmonia com o nosso sistema neurofisiológico, por forma a aproveitarmos uma vida inteira de aprendizagem eficaz. Sendo assim, durmam sobre o assunto.
Agradecimentos Com agradecimentos a Robert Stickgold (Harvard Medical School, MA, EUA) e Ullrich Wagner (Universität Lübeck, Alemanha), que conduziram a investigação aqui descrita, pelos seus comentários às actividades planeadas. Referências Hargreaves S (2000) Health, happiness, and a good night's sleep. The Lancet 355: 155 Huber R, Ghilardi MF, Massimini M, Tonomi G (2004) Local sleep and learning. Nature 430: 78-81 Saper CB, Scammell TE, Lu J (2005) Hypothalamic regulation of sleep and circadian rhythms. Nature 437: 1257-1263 Stickgold R (2005) Sleep-dependent memory consolidation. Nature 437: 1272-1278 Wagner U, Gais S, Haider H, Verleger R, Born J (2004) Sleep inspires insight. Nature 427: 352-355 Walker MP, Brakefield T, Hobson JA, Stickgold R (2003) Dissociable stages of human memory consolidation and reconsolidation. Nature 425: 616-620 Watson J (1980) The Double Helix: A Personal Account of the Discovery of the Structure of DNA. New York, NY, USA: W. W. Norton & Company Referências da Internet w1 – Todos os documentos necessários para os exercícios propostos podem ser obtidos no endereço electrónico: Opinião Este é um artigo que irá captar o interesse de alunos e professores. Descreve uma investigação científica complexa, em termos simples. O artigo e as experiências propostas são apropriados para integrarem os novos cursos GCSE (para idades compreendidas entre os 14 e os 16 anos) em Inglaterra, mas também podem ser realizados por estudantes de outras idades e de outros países.
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