Aprender com o riso Understand article

Traduzido por Alexandra Manaia. Neurocientista e atriz de ”stand-up comedy” Sophie Scott explica a complexidade e importância social do riso.

Como se consegue por um auditório cheio de cientistas a rir? Para Sophie Scott, a resposta é simples: basta fazê-los ouvir “clips” com gravações audio de risos incontroláveis de outras pessoas – a reação é “infeciosa”.

Sophie Scott
Sophie Scott
Imagem cortesia de Sophie
Scott

Mas para Sophie, isso não é apenas uma forma de “quebrar o gelo” com o público. Ela estuda a neurociência do riso na University College London (UCL), no Reino Unido. O seu trabalho de investigação centra-se no estudo do processo físico que conduz ao riso, e também na análise do seu papel social- por exemplo, na forma como usamos o riso nas interações sociais. O riso não é apenas engraçado, diz ela, é uma ferramenta extremamente útil.

Imagine que viajou para um país estrangeiro e não conhece a língua nem a cultura local; como comunicar? Vendo bem, existem poucas expressões com significado universal. A maioria das pessoas conseguem reconhecer uma expressão de medo ou aversão. Será que acontece o mesmo com uma expressão de alegria? Ou de prazer? O trabalho de Sophie tem demonstrado que o uso do riso para expressar emoções positivas é universal. Quando esteve na savana Africana, no contexto do seu trabalho de investigação, Sophie constatou que quando um caçador local se sentia embaraçado ou envergonhado, começava a rir, contagiando Sophie a a sua equipa.

De volta ao auditório, Sophie usa “clips” com gravações audio de risos para nos fazer rir. Não somos apenas contagiados pelos risos da gravação audio mas também pelas reações do público, nomeadamente pelas pessoas sentadas ao nosso lado. Podemos pensar que nos rimos especificamente de anedotas, mas nós rimo-nos sobretudo com o objetivo de interagir com outras pessoas. Rir é uma característica que partilhamos com os outros mamíferos- desde os primatas aos ratos- para quem o riso também está associado a atividades lúdicas (ex. brincadeiras e cócegas). “É um comportamento muito social”, explica Sophie. Interagimos com os outros através da conversa, uma atividade exclusivamente humana, mas em seguida usamos um “comportamento antigo”, comum ao resto dos mamíferos, o riso, para demostrar empatia.

Ao ouvir alguém rir, diz Sophie, o nosso cérebro ativa os neurônios preparando-nos para nos rirmos também. Existem dois tipos de riso- o riso verdadeiramente involuntário durante o qual quase não se consegue respirar, e o riso ‘falso’ usado como lubrificante social. O trabalho de Sophie tem demonstrado que o cérebro se ativa mesmo em resposta aos “falsos” risos. Isto, apesar dos dois tipos de riso corresponderem a sinais físicos e neurológicos diferentes. Sophie mostrou que os dois tipos de riso conseguem ativar os neurônios responsáveis por nos fazer rir. Além disto, o riso ‘falso’ também é capaz de ativar o nosso cérebro para tentarmos compreender a razão que levou as pessoas a rir e para prepararmos a forma como devemos reagir.

girl laughing
O riso é universal
Imagem cortesia de Alon; fonte da imagem: Flickr

O riso é uma ferramenta social que usamos para transmitirmos diferentes emoções- para interagirmos positivamente e mostrarmos que não constituímos uma ameaça. E, explica Sophie, embora consigamos distinguir entre risos reais e “falsos”, os risos “falsos” também desempenham um papel social.

Para ilustrar o que acaba de dizer, Sophie recorda um incidente que testemunhou recentemente, num comboio. Dois homens sentaram-se em redor duma mesa, onde já se encontrava uma passageira a trabalhar. Ela levantou-se, mas à medida que justificava porque se afastava (explicou que não lhe agradava o aroma do café que os dois homens estavam a beber), riu-se, e levou a que eles rissem também. Esta foi, segundo Sophie, uma boa maneira de suavizar a situação sem ofender os dois homens. No entanto Sophie tem a certeza que se tivesse perguntado às pessoas envolvidas, era provável que estas nem sequer se lembrassem de se terem rido.

Segundo Sophie, todos nós subestimamos o quanto nos rimos- usamos o riso todos os dias para promover interações sociais e atenuar confrontos e emoções negativas. Para aqueles que afirmam gostar de pessoas que os fazem rir, Sophie tem uma mensagem reveladora. O riso talvez seja mais uma consequência do que a causa: provavelmente rimo-nos com pessoas de quem, à partida, já gostamos.

Compreender as bases comportamentais e neurobiológicas do riso, vai para muito além de conseguir inventar boas anedotas, diz Sophie, O riso pode constituir um elo essencial entre a linguagem humana, as interações sociais e os estados emocionais. Portanto, ao criar o seu perfil numa rede de encontros online, não basta mencionar que está interessado em encontrar pessoas com sentido de humor; é mais importante encontrar alguém com quem se seja capaz de rir. 

Os mecanismos físicos subjacentes ao riso

Para compreender o riso, explica  Sophie, não podemos olhar apenas para o cérebro. Convém olhar também para uma parte do corpo, à qual os psicólogos e neurocientistas não dedicam muita atenção: a caixa toráxica. Usamos constantemente a nossa caixa toráxica para respirarmos. Movemos os músculos intercostais- os músculos entre as costelas- para promover a entrada ou saída de ar nos pulmões. Isto traduz-se numa sucessão de movimentos de expansão e contração da caixa toráxica, seguindo um padrão sinusoidal suave. Quando falamos, respiramos de forma completamente diferente- caracterizada por movimentos muito finos da caixa toráxica.

breathing measurements
Comparando os padrões de respiração, ao rir e ao falar. Os painéis superiores mostram a amplitude do som, o painel do meio mostra a frequência, e o painel inferior mostra a expansão do tórax
Imagem cortesia de Scott et al 2014

Mas a respiração pode ser interrompida pelo riso. Quando rimos, os músculos intercostais começam a contrair muito regularmente, resultando num padrão de contração em zig-zag. Cada contração é responsável por produzir o som – “Ha”. A sucessão de contrações resulta numa série de espasmos e respiração ofegante. Repare no riso dos seus amigos e verá que, ao rirem, eles atingem intensidades sonoras mais elevadas do que quando falam normalmente. Isto deve-se à força com que o ar é expelido dos pulmões durante o riso. A intensidade do som aumenta à medida que a reação fisiológica de excitação da pessoa que está a rir, aumenta. Também podem ocorrer sibilos, roncos, grunhidos e assobios.

Tal como diferentes regiões do cérebro são responsáveis por induzir o “falso” riso, e o riso involuntário, o trabalho de Sophie conseguiu identificar várias diferenças acústicas e fonéticas entre o ‘falso’ riso social e o riso jovial involuntário. Algumas destas diferenças estão diretamente ligadas com as forças de maior intensidade, geradas durante o riso involuntário, que são extremamente difíceis de produzir voluntáriamente. Segundo Sophie, isso sugere que os risos “falsos” não são necessáriamente apenas uma forma mais suave do riso “real”, mas que possuem “marcadores” próprios, o que reflete a sua importância social.

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References

Resources

Author(s)

Laura Howes é uma das editoras do Science in School. Estudou química na Universidade de Oxford no Reino Unido, tendo depois trabalhado para a Royal Chemistry Society, também no Reino Unido, na área da edição e publicação científica e em jornalismo de ciência. Em 2013, Laura mudou-se para o European Molecular Biology Laboratory na Alemanha, para integrar a equipa do Science in School.


Review

Como professores, devemos estar familiarizados com as emoções e interações humanas e com o modo como estas afetam a aprendizagem e o ambiente social na escola. O riso é uma importante ferramenta de interação social- conhecer os novos dados da neurociência sobre as suas causas e mecanismos pode ser muito útil. Os resultados aqui apresentados tanto podem ser usados para o desenvolvimento profissional dos professores, como diretamente nas aulas- por exemplo, em colaborações interdisciplinares entre biologia, química, psicologia e ciências sociais.

O tema da ciência do riso poderia ser abordado, por exemplo, numa discussão sobre interação social e emoções humanas. Para falar sobre os diferentes tipos de riso com os alunos mais jovens, podemos usar emojis e fotos. Com os alunos mais velhos podemos falar de forma mais abstrata e usar dados científicos.

Sugiro que os professores realizem atividades experimentais com os alunos sobre o tema das emoções básicas. Em seguida poderão comparar resultados obtidos com os resultados apresentados por Sophie. Como conseguimos distinguir risos “falsos” dos   ‘reais’? Podemos interpretar com precisão a diferenças, observando os nossos amigos? Será que os computadores conseguem identificar os dois tipos de riso a partir da análise dos dados do som?


Ingela Bursjöö, Johannebergsskolan, Gothenburg, Suécia




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