Usar estórias para fazer experiências Teach article

Traduzido por Alexandra Manaia. Os contos tradicionais podem ser uma ótima maneira de introduzir atividades práticas sobre ciência, a nível da escola primária.

No início deste ano, organizei workshops para crianças e jovens (idades entre 7-10), e também para os seus pais poderem realizar atividades práticas relacionadas com estórias características de várias culturas ou contos tradicionais. Muitas escolas primárias no Reino Unido são frequentadas por alunos de diferentes origens culturais- em algumas delas pode mesmo ouvir-se falar em 25 línguas. Mas apesar das diferenças, todos apreciamos uma boa estória. Algumas das estórias que usei conseguiram encontrar eco em pessoas de culturas muito distintas, e também foram capazes de transmitir valores positivos e promover boa ciência.

Embora tenham sido inicialmente concebidas para crianças e famílias, estas atividades requerem apenas equipamento barato e acessível e conseguem ser fácilmente adaptadas à sala de aula. Aqui, descrevo atividades que apresentam diversos conceitos científicos, que são introduzidos através de contos populares e lendas.

A manteiga e as duas rãs

making butter
Até vai poder provar o
resultado da sua experiência

Imagem cortesia de Sai
Pathmanathan

A primeira atividade baseia-se num conto tradicional russo.

Era uma vez uma rã grande e uma rã pequenina. Um dia foram passear e chegaram a uma quinta. Enquanto brincavam saltaram acidentalmente para dentro de uma vasilha com natas. As paredes da vasilha eram demasiado altas e escorregadias para conseguirem sair de lá.

A rã pequenina disse que para conseguirem sair precisavam de continuar a esbracejar até que alguém viesse resgatá-las. Mas a rã grande respondeu-lhe que estava demasiado cansada para nadar e começou lentamente a afundar-se. A rã pequenina insistiu com a rã grande para continuarem ambas a esbracejar. À medida que esbracejavam as natas começaram a transformar-se em manteiga. Formou-se um enorme pedaço de manteiga a flutuar, à superfície. As duas rãs subiram para lá, e dali conseguiram saltar para fora da vasilha. E fugiram a correr para casa.

Materiais

Por participante:

  • Pequeno copo plástico descartável, ou qualquer outro tipo de recipiente transparente com uma abertura estreita
  • Colher de plástico
  • Folha de alumínio de cozinha  (10cm x 10cm)
  • Pequeno balão

Por sala-de-aula:

  • Tesouras
  • 300-600 ml de natas (mínimo 48% de matéria gorda)
  • Facultativo: bolachas de água e sal (“crackers”) ou pão (as atividades comestíveis são sempre inesquecíveis!)

Procedimento

  1. Cortar o “pescoço” do balão.
  2. Deitar cerca de 1 cm de natas para o copo (quanto mais quantidade, mais tempo demorará a experiência).
  3. Coloque a folha de alumínio sobre a abertura do recipiente, estique o balão e coloque-o por cima folha de alumínio, de modo a vedar o recipiente e a evitar fugas de líquido.
  4. Agora, com cuidado, agitar o copo! Não deve demorar mais de 15 minutos até que as natas se transformem em manteiga. Após 5 minutos de agitação deve começar a notar que a mistura fica mais espessa e que muda de cor: vai-se tornando sólida e amarela. A dada altura vai mesmo sentir um ruído (“estalido”) que corresponde à formação de uma pequena bola de manteiga.
  5. Ao remover o balão e a folha de alumínio, deve encontrar um pedaço de manteiga a flutuar no líquido leitoso.
  6. Opcional: usando a colher de plástico, espalhar uma pequena quantidade de manteiga na fatia de pão ou na bolacha de água e sal (“cracker”) e prove. (Por favor, assegure-se que está a respeitar as regras de higiene e segurança; nem sempre é possível provar produtos alimentares nos laboratórios escolares e nas salas de aula).

Que fenómenos estão a ocorrer?

As natas são uma emulsão: pequenas gotículas (neste caso, matéria gorda) em suspensão noutro líquido (essencialmente água, mas contém também proteínas, açúcares e sais minerais, como o cálcio). A agitação faz com que as gotas de gordura se movimentem em conjunto e colidam. Ao chocarem umas com as outras com força suficiente, as gotas aderem e juntam-se. O pedaço de manteiga torna-se maior à medida que mais gotas se juntam.

Poderá, por exemplo, perguntar aos seus alunos:

  • Como são produzidas as natas?
  • De que são formadas as natas? Em que diferem do leite?
  • Será que é mesmo necessário usarmos natas com grande percentagem de gordura? Poderiamos utilizar natas menos gordas ou mesmo leite? (justificar)
  • Se quase toda a matéria gorda se encontra agora na manteiga, de que é formado o líquido leitoso que resta?
  • A moral desta estória também se aplica bem às crianças e jovens. Tal como as rãs, precisam de aprender a esforçar-se e a não desistir!

Vulcões em erupção: Pele, a deusa-do-vulcão-de-fogo

Esta atividade baseia-se numa lenda havaiana para simular o fenómeno de erupção vulcânica.

Um dia, Namaka, a deusa do mar zangou-se com a sua irmã Pele, a deusa do fogo. Então, os pais, a Mãe Terra e Pai Céu, enviaram Pele e os seus outros irmãos e irmãs numa canoa para que encontrassem um lugar seguro onde se esconder de Namaka. Eles desembarcaram numa ilha e Pele começou a construir uma casa para todos- usando a sua “varinha de escavação” abriu uma cavidade no solo e ateou uma fogueira lá dentro. A explosão de fogo que saiu da terra projetou rios de lava quente para o oceano e afastou a água. À medida que a lava arrefeceu transformou-se em rocha, formando-se a ilha de Kaua’i: um novo lar para Pele e seus irmãos.

volcano
Imagem cortesia de oenvoyage; fonte da imagem: Flickr

Mas Namak, que ainda estava enfurecida, enviou ondas enormes que inundaram tudo e apagaram o fogo. Assim, Pele e seus irmãos tiveram que se mudar novamente. Descobriram uma nova ilha e mais uma vez, Pele cavou um buraco e acendeu lá um fogo; a lava resultante formou a ilha de O’ahu. No entanto, mais uma vez, Namaka enviou ondas gigantes para inundar nova casa de Pele. Por fim, os irmãos alcançaram a “Big Island” (Ilha Grande), que era demasiado alta para que as ondas de Namaka conseguissem apagar o fogo. Os Havaianos nativos acreditam que Pele ainda vive na cratera de Kilauea na “Big Island”.

Materiais

Por participante:

  • Barra de plasticina
  • Lápis
  • Taça ou alguidar
  • Colher de plástico

Para partilhar:

  • Bicarbonato de sódio (NaHCO3)
  • Vinagre (CH3COOH)
  • Facultativo: lantejoulas ou brilhantina (para fazer brilhar a “lava”).
  • Facultativo: copos de plástico, pipetas de 3ml (para adicionar o vinagre)

Procedimento

  1. Com a plasticina molde um cone em forma de montanha. Este é o seu modelo de vulcão.
  2. Use a extremidade não pontiaguda do lápis para escavar uma cavidade no topo do cone; com profundidade necessária para conter alguma quantidade de lava.
  3. Colocar o modelo de vulcão dentro da taça ou alguidar para evitar que ao ser projetada, a lava cause estragos (ex. sujar).
  4. Facultativo: misturar um pouco de bicarbonato de sódio com brilhantina ou lantejoulas (se quiser que a lava brilhe).
  5. Coloque um pouco de bicarbonato de sódio (com ou sem brilhantina e lantejoulas) dentro da cavidade, no cone do vulcão.
  6. Para iniciar uma erupção, adicionar lentamente (com o auxílio de uma pipeta) uma pequena quantidade de vinagre dentro da cavidade do vulcão.

Que fenómenos estão a ocorrer?

Um vulcão é uma abertura na crosta terrestre através da qual se expulsa- com muita força- rocha derretida (magma), gás e cinzas. Os principais gases que saem dos vulcões são vapor de água e dióxido de carbono; mas também são expelidos outros gases mais perigosos.

Nesta atividade, a mistura de lava é formada principalmente por bicarbonato de sódio, que é um composto alcalino. Quando um ácido, como o vinagre, reage com o bicarbonato de sódio, libertam-se as bolhas de dióxido de carbono.

Algumas perguntas para os alunos:

  • O que está a causar a saída da mistura através do cone do modelo de vulcão?
  • A que correspondem as bolhas? Que outros gases consegue mencionar?
  • A temperatura da mistura aumentou? Porquê? Porque não?
  • Qual a correspondência entre o fenómeno que está a observar no modelo de vulcão e os fenómenos que ocorrem num vulcão verdadeiro?

Os alunos podem observar uma amostra rochosa de lava (por exemplo, pedra-pomes), que é surpreendentemente leve. Ou pode ensinar-lhes os termos havaianos para diferentes tipos de lava: Pahoehoe é a lava lisa que arrefece lentamente e que se move devagar, e A’ é a lava afiada que se move rapidamente e que arrefece muito depressa.

A subida do nível da agua: a estória do corvo e do jarro

crow
Nesta fábula de Esopo um
corvo utiliza pedras para
fazer subir o nível da água
dentro de um jarro

Imagem cortesia de John
Gerrard: fonte da imagem:
Wikimedia Commons

Baseada na fábula do corvo e o jarro de Esopo, esta atividade investiga os fatores que levam à subida do nível da agua.

Era uma vez um corvo muito esperto. Num dia de muito calor, ele estava cheio de sede. Enquanto voava localizou um jarro com água. Mas o jarro continha pouca água, que se encontrava no fundo e ele não era capaz de a alcançar. Por mais que tentasse só conseguira derrubar o jarro e levar a que alguma da agua caísse. Se continuasse, arriscava-se a verter toda a água no chão sem a poder beber.

O corvo pôs-se a pensar um momento. Depois, pegou numa pedra e atirou-a para dentro do jarro. Então, apercebeu-se que a queda da pedra tinha provocado a subida do nível da água no interior do jarro. Quanto mais pedras atirava para dentro do jarro, mais a água subia. E assim, o  corvo acabou por conseguir beber de água do jarro.

Materiais

Por participante:

  • Uma chávena de vidro transparente
  • Um marcador
  • Água

Para partilhar:

  • Um conjunto de pequenos objetos, por ex. cubos de gelo, pequenas pedras, plasticina, ou conchas.

Procedimento

  1. Encha metade da chávena com água; com um marcador desenhe uma linha correspondente ao nível da água.
  2. Teste o que acontece quando coloca diferentes objetos dentro da chávena;  coloque apenas um objeto de cada vez.

Que fenómenos estão a ocorrer?

Como a água não pode ser comprimida, vai-se deslocar para cima. Quer dizer, dá-se uma subida do nível de água; o volume da subida de água é idêntico ao volume do objeto adicionado. Este fenómeno pode ser utilizado para determinar o volume de um objeto irregular; e no caso de termos também medido o peso do objeto, poderemos calcular a sua densidade.

Os conceitos de volume e densidade podem ser demasiado complexos de transmitir a crianças tão jovens. Nesse caso, os alunos podem limitar-se a observar quais os objetos que flutuam e os que se afundam, e tentar relacionar as características dos objetos com a subida do nível da água. Abaixo, encontram-se alguns alguns exemplos de perguntas para os alunos.

  • O que leva à subida do nível da água?
  • Será que os objetos maiores causam uma maior subida do nível de água do que os mais pequenos?
  • E o que acontece com os objetos ocos, como por exemplo, as conchas?
  • Pegue em dois pedaços de plasticina de tamanho idêntico e molde-os em formas diferentes (por exemplo, uma bola e uma minhoca). Será que a diferença de forma afeta a subida do nível da água?
  • Qual o efeito dos objetos flutuantes (ex. gelo) no nível de água?
  • As crianças mais velhas podem tentar encontrar maneiras de medir o volume dos diferentes objetos.

Agradecimentos

Estas atividades foram desenvolvidas com o apoio da “Biochemical Society” (Sociedade de Bioquímica) do Reino Unidow1.

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Web References

  • w1 – A “Biochemical Society” (Sociedade de Bioquímica) do Reino Unido oferece bolsas para apoiar a realização de projetos de divulgação cientifica que contribuam para comunicar aspetos da investigação em biologia molecular à população mais jovem, e a toda a comunidade.

Author(s)

Sai Pathmanathan trabalha como consultora independente na área  da educação científica.  Produz recursos educativos, organiza e apresenta workshops e atividades de divulgação cientifica. Trabalhou como investigadora na “Queen Mary University of London” no Reino Unido. Foi também bolseira da “National Science Foundation”, EUA, onde desenvolveu projetos de educação científica informal. E foi diretora do Ignition*,  um programa que promoveu a utilização de abordagens criativas no ensino das disciplinas STEM (ciências, tecnologia engenharia e matemática), no Reino Unido.


Review

Trata-se de um artigo interessante e inovador pois ajuda o professor a ensinar ciência de forma interdisciplinar. Eu gostaria de implementar estas atividades nas minhas aulas pois são uma ótima maneira de fazer a ponte entre as ciências, e outras matérias como as línguas estrangeiras e as técnicas narrativas. As atividades experimentais são muito interessantes para os alunos do ensino primário e são ainda um pouco fora do comum para crianças dessas idades.


Christiana Th Nicolaou, Centre of Educational Research and Evaluation, Ministério da Educação e Cultura, Chipre




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