Má ciência: aprender com a ciência nos meios de comunicação social Teach article

Traduzido por Maria João Fonseca. Quando lê o jornal, como é que sabe no que deve acreditar? Ed Walsh guia-o e aos seus alunos através do campo minado da ciência nos meios de comunicação social.

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A ciência está à nossa volta – mas a pseudociência também. Poucos de nós leem os artigos científicos originais que estão por trás de cada história de ‘ciência’, por isso como sabemos no que podemos acreditar? E porque é que nem todas as histórias sobre ciência que surgem nos meios de comunicação social são fidedignas? Esta actividade educativa pretende ensinar aos alunos:

  • A diferença entre estudos de observação e de intervenção
  • Porque é que temos que escrutinar cuidadosamente as notícias que surgem na comunicação social acerca dos benefícios para a saúde associados a diferentes aspectos da dieta
  • Que a decisão de se alterar o estilo de vida normalmente depende de diversos factores.
Gotemburgo, Suécia
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Introdução

  1. Peça aos alunos para imaginarem que decidiram emigrar. Irão viver e trabalhar numa das seguintes regiões: Suécia/ Grécia rural/ Melbourne, Austrália. Mostre aos alunos imagens dessas regiõesw1.
  2. Em pequenos grupos, os alunos devem discutir todos os aspectos que podem diferentes associados à vida nestas condições, tais como poluição, dieta, cuidados de saúde, ritmo de vida, prosperidade, tipos de emprego, e clima.
  3. Explique que após um determinado número de anos, o aparecimento de rugas na sua pele vai ser medido, de forma científica. Qual dos factores por eles identificados poderá fazer uma diferença em relação ao aparecimento de rugas? Clarifique que pode haver várias causas.

Muitas vezes, quando existem várias causas, é difícil perceber qual é exactamente aquela que provoca um resultado específico, tal como o aparecimento de rugas, especialmente quando estas causas estão interligadas. Num estudo científico, tentamos fazer variar apenas um elemento de cada vez. Por vezes, isto pode ser difícil, e temos que pensar numa forma de ter essa limitação em consideração, ou então desenvolver outro tipo de estudo.

Grécia rural
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Actividade principal

  1. Peça aos alunos para imaginarem que estão a trabalhar como cientistas e lhes foi pedido para investigarem a utilização de azeite na dieta humana como uma forma de reduzir o aparecimento de rugas na pele. A hipótese é que ‘um maior consumo de azeite leva ao aparecimento de menos rugas’.
  1. Peça aos alunos para decidirem como poderiam definir uma experiência deste tipo. Incentive-os a reflectir acerca de factores como:
    • O tamanho dos grupos
    • Como realizar um teste imparcial
    • Como controlar as variáveis.
  2. Quais são os problemas associados ao desenvolvimento deste tipo de investigação?

Explique aos alunos que existem dois tipos principais de estudos que os cientistas podem usar para responder a esta questão, um estudo de observação e um estudo de intervenção. Os estudos de observação são aqueles em que os cientistas procuram pessoas que já introduziram nas suas vidas as mudanças que eles estão a estudar (ex. quem tem estado a utilizar azeite na sua dieta e quem não o tem feito?)

  1. Melbourne, Austrália
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    Peça aos alunos para reflectirem acerca das vantagens e desvantagens deste tipo de estudo.
    Sublinhe que os estudos de observação recorrem a comportamentos já existentes, pelo que a sua realização é mais simples e económica, mas podem acarretar dificuldades no isolamento de variáveis individuais. As pessoas no grupo de estudo podem muito bem utilizar diferentes quantidades de azeite nas suas dietas, mas haverá certamente muitas outras diferenças. Como resultado, pode ser extremamente difícil determinar claramente a medida em a presença de azeite constitui um factor significativo na prevenção do aparecimento de rugas na pele.

Explique aos alunos que os estudos de intervenção (‘ensaios’) são aqueles em que os cientistas controlam as variáveis (ex. um indivíduo vai incluir azeite na sua dieta, mas o outro não vai).

  1. Pergunte novamente aos alunos quais as vantagens e desvantagens que eles pensam que este tipo de estudos tem.
    As ideias devem incluir a noção de que os estudos de intervenção envolvem um controlo de variáveis muito mais eficiente e os grupos podem ser equilibrados no sentido de eliminar outras variáveis. Contudo, a sua realização é mais dispendiosa e pode suscitar questões éticas: imagine uma investigação acerca de hábitos de tabagismo neste contexto. Também podem ser mais prolongados: se se quiser examinar o efeito da ingestão de azeite ao longo da vida na esperança de vida, ter-se-ia que começar a experiência com crianças, mas esperar talvez 70 anos para se ter a resposta.
  1. Volte novamente às investigações propostas pelos alunos, e peça-lhes para identificarem que tipo de estudo é que utilizaram.
Poderá o aumento do
consumo de azeite prevenir o
aparecimento de rugas?

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Explique aos alunos que em 2001 foi realizado um estudo científico detalhado acerca do aparecimento de rugas na pele de pessoas que viviam na Suécia, Grécia e Austrália, cujos resultados irá partilhar com eles. Dependendo da idade e competências dos alunos, poderá fazer isto através de uma (ou mais) de três formas diferentes:

  • Explique verbalmente, destacando pontos-chave no quadro
     
  • Dê aos alunos cópias dos resultados adaptados (ficha de trabalho 1, que também pode ser descarregada abaixow2)
     
  • Dê aos alunos cópias do artigo científico original (br Purba et al., 2001).
     
  1. Peça aos alunos para trabalharem em grupos e explorarem aquilo que foi demonstrado pela investigação.
  • Este estudo foi de observação ou de intervenção?
  • O estudo permitiu identificar uma associação entre traços da dieta das pessoas e a quantidade de rugas que elas possuíam. Isso poderia dever-se ao facto de diferentes dietas provocarem o aparecimento de mais ou menos rugas. Mas que explicações alternativas existem? Existem factores que pudessem estar associados de forma independente quer à dieta, quer ao aparecimento de rugas, tais como a classe social, o trabalho ao ar livre, a exposição ao sol, o tabagismo, entre outros? (Nesta situação, os cientistas designariam estas explicações alternativas como ‘variáveis perturbadoras”.)
  • Este estudo demonstrou que modificar a dieta ajuda a ter menos rugas?
     
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Souza; Fonte da Imagem:
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  1. Peça aos alunos para trabalharem em pequenos grupos. Cada grupo tem que escrever um pequeno texto (até 50 palavras) para um jornal local, a partir deste documento.

    O editor deixou bem claro que eles querem algo apelativo acerca de como os leitores podem desfrutar do sol de Verão sem que este os afecte. Fazer com que o editor fique satisfeito pode ser difícil, porque a investigação tem limitações e não apresenta uma resposta clara. As peças devem ser escritas com letra visível em cartolina e expostas pela sala.
     

  2. Peça aos alunos para analisarem os trabalhos uns dos outros e atribua a cada peça duas pontuações (numa escala de cinco): uma pontuação por ‘quão apelativa é’ e a outra por ‘quão precisa é’.
  3. Mostre aos alunos o excerto do Daily Mirror (‘Protecção solar num prato’, ficha de trabalho 2, que também pode ser descarregada abaixow2), que faz parte de um artigo mais extenso que inclui uma série de sugestões para melhorar a dieta. Peça aos alunos para discutirem em que medida as conclusões do artigo são razoáveis. Sublinhe que não estamos a dizer que o azeite não faz bem, mas sim a perguntar se estas conclusões são inteiramente justificadas.

     

    Imagem cortesia de wrw; Fonte
    da Imagem: pixelio.de

    Alguns alunos podem pensar que as notícias de jornal fazem com que as mensagens importantes de artigos científicos crus se tornem acessíveis a uma maior variedade de pessoas. Outros podem pensar que não é assim tão simples, e que, se se pretende ter a pele macia quando se for mais velho, poderá ter que se fazer um pouco mais do que consumir mais azeite. Alguns podem pensar que simplificar a história de forma a torná-la mais acessível, deixando de fora as advertências, também a tornou enganosa.
     

  4. Chame a atenção para o resumo do artigo científico, que referia que “Este estudo ilustra que o aparecimento de rugas na pele de pessoas com idade avançada de diversas etnias, em zonas de elevada exposição solar, pode ser influenciado pelo tipo de alimentos ingerido.” Relembre os alunos das variáveis perturbadoras que eles identificaram no início da aula e pergunte-lhes em que medida as suas notícias e a do Daily Mirror tiveram em consideração estas variáveis.
     
  5. Peça aos alunos para trabalharem em pares e listarem os prós e contras dos estudos de observação e de intervenção.

Peça aos alunos para levantarem o braço – se deixariam imediatamente de usar manteiga ao verem um cabeçalho no jornal do dia seguinte, ‘Estudo científico demonstra que a manteiga causa cancro de pele’.

 

Ficha de trabalho 1: Resumo das conclusões do artigo científico

Este estudo (br Purba et al., 2001) foi concebido com o objectivo de verificar se existia uma correlação entre a ingestão de diversos alimentos e o aparecimento de rugas na pele em locais ue recebem quantidades significativas de luz solar.

O estudo incluiu quatro grupos:

Grupo 1: 177 pessoas nascidas na Grécia, mas que vivem agora em Melbourne, Austrália

Grupo 2: 69 pessoas nascidas na Grécia e que vivem na Grécia rural

Grupo 3: 48 Australianos anglo-celtas que vivem em Melbourne

Grupo 4: 150 pessoas nascidas e que ainda vivem na Suécia.

Eles estavam a participar no estudo “Hábitos alimentares na vida adulta” da União Internacional de Ciências da Nutrição (International Union of Nutritional Sciences, em inglês), e as suas ingestões alimentares eram medidas e a sua pele avaliada.

Os resultados mostraram que as pessoas incluídas no Grupo 4 desenvolviam menos rugas em locais expostos ao sol, seguidas pelas pessoas dos grupos 1,2 e 3. A análise dos dados e a identificação da correlação com grupos de alimentos sugeriram que pode haver menos danos cutâneos naquelas pessoas que ingerem mais vegetais, azeite, peixe e legumes, e menos manteiga e margarina, lacticínios e açúcares.

Taxas elevadas de ingestão de vegetais, legumes e azeite aparentaram conferir protecção contra o aparecimento de rugas, enquanto que uma ingestão levada de carne, lacticínios e manteiga pareceu ter o efeito oposto.

Este estudo demonstra que o aparecimento de rugas na pele de pessoas mais velhas de várias etnias em locais de exposição solar pode ser influenciado pelos tipos de alimentos que estas consumem.

 

Ficha de trabalho 2: artigo do Daily Mirror

Protecção solar num prato!

By Angela Dowden 13/06/2006

With temperatures soaring to record levels, it’s vital to protect yourself from the Sun’s rays. Here are the foods that can help…

By making a few simple changes to your diet, you can help protect your skin from sunburn, ageing and even cancer. Of course, you also need to keep wearing your sun lotion and a hat and stay in shade during the heat of the day, but here’s how to get some of your SPFs [sun-protection factors] on a plate…

Azeite

Um estudo Australiano de 2001demonstrou que o azeite (juntamente com fruta, vegetais e legumes) conferia uma protecção quantificável contra o aparecimento de rugas. Deve ingerir mais azeite usando-o como tempero em saladas ou para molhar pão, em vez de usar manteiga.

 

Má ciência é boa para a ciência na escola

Bad Science é um livro (Goldacre, 2008), uma coluna no jornal The Guardian e um websitew3 da autoria de Ben Goldacre, um escritor premiado e locutor especializado em desmontar argumentos científicos duvidosos feitos por jornalistas sensacionalistas, relatórios governamentais ambíguos, corporações farmacêuticas maléficas, relações públicas e charlatanices. Promove um cepticismo saudável como forma de detectar utilizações poderosas e eficientes de ciência e as suas utilizações incorrectas e abusos.

Ed Walsh, consultor científico do Cornawall Learning, pegou em oitos dos estudos-de-caso do livro e adaptou-os em aulas para estimular os alunos (idades 14-16) e os incentivar a pensar por si próprios e a usar a abordagem Má Ciência. Para descarregar os restantes materiais educativos, visite o website Bad Science for Schoolsw4.

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References

  • br Purba, M et al. (2001) Skin wrinkling: can food make a difference? Journal of the American College of Nutrition 20(1): 71–80
  • Goldacre B (2008) Bad Science. London, UK: Harper Collins. ISBN: 9780007240197

Web References

  • w1 – Uma ficha de trabalho com as imagens da Grécia rural, Melboune, Austrália e Suécia usadas neste artigo pode ser descarregada aqui em formato Word® ou PDF.
  • w2 – Pode descarregar as fichas de trabalho para os alunos aqui:
    • Ficha de trabalho 1 em formato Word® ou PDF
    • Ficha de trabalho 2 em formato Word® or PDF
  • w3 – Para ler a coluna de jornal de Ben Goldacre, visite o website Bad Science: www.badscience.net
  • w4 – Para descarregar os oito planos de aula ‘Bad science for schools), visite: www.collinsnewgcsescience.co.uk/badscience

 

Resources

Author(s)

Ed Walsh é um designer de currículos com experiência na colaboração com professores, escolas, autoridades locais e agências nacionais. Como Science Advisor da Cornwall Learning, dá apoio e orientação a escolas em Cornwall, Reino Unido, acerca de desenvolvimento curricular em geral, e ciência em particular, incluindo material de escrita e de edição para a utilização em sala de aula e apoio ao professor.


Review

Este artigo permite aos aulos pensar cientificamente acerca do que ouvem ou leem nos meios de comunicação social. Começando com uma dramatização, a actividade desencadeia o seu raciocínio e a discussão em grupo. A actividade está relacionada com a digestão e a saúde, e seria, por isso, adequada a aulas de biologia, mas a sua estrutura poderia ser usada em qualquer aula de ciência, para estimular o pensamento crítico.

Para alunos de idades entre 14-16 anos de idade, a actividade poderia ser usada tal como é descrita. Parar alunos mais jovens (11-13 anos de idade), este artigo poderia estimular o professor a utilizar os meios de comunicação social cuidadosamente para sensibilizar os alunos acerca de tópicos científicos, ou como a base de discussões em grupo-turma acerca de tópicos relacionados com o currículo.

No final da actividade, uma discussão geral poder-se-ia estender para além do currículo de ciências, examinando as implicação da dieta, exposição solar e cirurgia estética.


Stephanie Maggi-Pulis, Malta




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CC-BY-NC-SA