O ensino de ciências no centro das atenções Inspire article

Traduzido por Alexandra Manaia. Um programa bem recheado juntou professores de toda a Europa e do Canadá para partilharem ideias, boas práticas, e muita animação.

Em junho de 2015, o campus de East London da Queen Mary University of London no Reino Unido viveu-se um ambiente especialmente vibrante e entusiástico: sentiram até explosões e muitos risos. Tratou-se da edição de 2015 do Festival Science on Stage que reuniu 350 professores de ciências de toda a Europa e do Canadá para compartilharem ideias e projetos para aplicar na sala de aula. Para muitos professores o período de férias de Verão já tinha começado- para estes, viajar até  Londres e participar no festival implicou deixarem de gozar parte do seu tempo de lazer. E aqueles professores para quem o ano letivo ainda estava a decorrer tiveram de usar o seu precioso tempo extra-aulas para participar. Isso só por si mostra  bem a importância atribuída à participação neste festival – pelos próprios professores, e pelas respectivas escolas.

“Esta é uma oportunidade única para os professores de todo o mundo partilharem ideias fantásticas sobre o ensino das ciências”, afirmou Charlotte Thorley, presidente do comité de direção nacional do Reino Unido, e diretora do festival. “Não queremos que partam do festival apenas com uma pasta cheia de folhetos que provavelmente não tornarão a reler, mas sim com uma centena de ideias e planos para melhorarem as suas aulas.”

science on stage bunting
Imagem cortesia de QMUL/Gary Schwartz

O nono festival Science on Stage tinha como subtítulo “Iluminando a educação científica”, um tema apropriado pois 2015 é o Ano Internacional da Luz. Por causa deste tema principal, muitos dos projetos apresentados focaram-se em diferentes caraterísticas da luz. Mas a física não foi, de modo nenhum, a única área representada no festival: a química, biologia e matemática estiveram bem presentes nos projetos em exposição.

Na sessão de lançamento do festival, o Professor Peter McOwan da Queen Mary University abordou o fenómeno do “síndroma da visão de computador” (também conhecido como imagem de saliência)- a mensagem que provávelmente a maioria dos participantes irão reter é a facilidade com que nossa visão pode ser enganada, quando nos focamos nas componentes mais “importantes” de uma imagem.

Os truques de magia protagonizados no palco por McOwan poderiam representar uma boa metáfora do festival –a grande quantidade e diversidade de projetos apresentados tornou muito difícil que cada participante conseguisse abarcar a totalidade. Vários participantes exprimiram o desejo de que o festival tivesse durado mais do que quatro dias. “Isso realmente poderia ter decorrido ao longo de uma semana inteira”, disse Kristy Turner, professor de química no Reino Unido.

Tal como em edições anteriores, os participantes foram selecionados através de uma série de eventos e competições para representarem alguns dos melhores professores e projetos dos seus respectivos países. Todos os participantes montaram bancas na área expositiva onde apresentaram os seus projetos e atividades- desde métodos inovadores para  ensinar ciência a crianças deficientes, à “ciência de Harry Potter”, à utilização mosaicos islâmicos para abordar a geometria fractal, até à apresentação de métodos para envolver os alunos em projetos de investigação e desenvolvimento com aplicações práticas na industria.

Vários delegados manifestaram satisfação em descobrir as técnicas simples utilizadas pelos seus colegas de outros países para explicar conceitos mais complicados. Por exemplo, Jose, professor espanhol e Linda, vinda de Itália, tiveram oportunidade de partilhar a paixão comum pela diversidade de formas geométricas. No festival, Linda explicou como utilizou canetas que escrevem em três dimensões (3D)- em vez de tinta, libertam um fio em plástico- para interessar os seus alunos pela manipulação de superfícies 3D, de uma forma muito tátil e visual. Uma abordagem descrita por Jose como “fascinante”. A maneira como todo festival se desenrolou refletiu totalmente as palavras de Stephanie Schlunk na cerimónia de abertura: o Science on Stage é feito por professores, para professores.”

Alguns dos participantes foram selecionados para apresentar demonstrações,  palestras ou para realizar workshops para pequenos grupos. Por exemplo, um participante Suíço apresentou um workshop saboroso em que usou técnicas de gastronomia molecular para criar uma mousse de chocolate sem ovos- bateu apenas chocolate derretido, arrefecido em gelo. Claro que os produtos alimentares típicos dos vários países, trazidos pelos participantes, vieram reforçar o sentimento de partilha do festival.

stage with glitter
Imagem cortesia de QMUL/Gary Schwartz.

Depois de uma sexta-feira bem preenchida, em que as atividades do festival entraram pela noite dentro, incluindo um espetáculo de dança ceilidh (dança escocesa) sobre biologia, os participantes já um pouco cansados reuniram-se para a cerimónia final do festival. Todos os participantes do festival internacional Science on Stage já se poderiam considerar vencedores: tinham conseguido ser selecionados entre milhares de professores de toda a Europa e do Canadá pelas suas ideias inovadoras. Mas alguns participantes afortunados foram distinguidos com a atribuição de prémios adicionais (ver caixa abaixo)- a entrega dos prémios decorreu antes do anúncio do programa do próximo festival internacional Science on Stage. À medida que os organizadores informavam de que em 2017 o festival se realizará em Debrecen na Hungria, de 29 Junho a 2 Julho, caía na sala uma nuvem de purpurina dourada.

O festival Science on Stage nasceu a partir de uma ideia original do EIROforumw1,  a rede de instituições científicas responsável pela publicação do jornal Science in School. A organização do festival Science on Stage é actualmente financiada principalmente pelo Think Ing, uma iniciativa da Associação Alemã de Instituições e Indústria Metalo-Electrica (Gesamtmetall), com o objectivo  de melhorar o ensino das ciências na Alemanha, e no resto da Europa. Se gostaria de participar no festival Science on Stage no seu país – e talvez mesmo ser selecionado para participar do próximo festival internacional – entre em contato com os organizadores nacionais através do website Science on Stagew2. As inscrições e a seleção para os festivais nacionais começam a partir do Outono deste ano. E se quiser ficar com uma panorâmica sobre o conjunto de  projetos e atividades apresentados em Londres, consulte o poster virtual do festivalw3.

science on school fair
Imagem cortesia de QMUL/Gary Schwartz

 

Os projectos vencedores

Todos os projetos apresentados na edição de 2015 do festival Science on Stage representam abordagens de tipo “inquiry-based learning” (ensino e aprendizagem centrados na investigação e experimentação) e foram selecionados com base na sua capacidade de:

  • promoverem o interesse dos alunos pela ciência;
  • estarem ligados a aspectos da vida quotidiana;
  • conduzirem a um impacto sustentável;
  • envolverem baixos custos, sendo  fácilmente financiáveis, e podendo ser implementados com sucesso no ambiente escolar;
  • promoverem estratégias de tipo  “inquiry-based learning” (ensino e aprendizagem baseados na investigação e experimentação).

Os vencedores foram:

  • Diane Marie-Campeau do Canadá, com o projeto intitulado “A terra é o professor” que aplicou pedagogia indígena-   utilizou a terra e seus recursos como um modelo para fazer ciência interdisciplinar.
  • Renata Rydvalová da República Checa, cujo projeto ‘Reino do Mel’ permitiu a crianças do jardim de infância e da escola primária, explorar o mundo das abelhas, e assim aprender biologia, matemática, física e química.
  • Gregor von Borstel, Andreas Böhm, Manfred Eusterholz e Andy Bindl da Alemanha, que desenvolveram os projetos “Bodyheater”, o aquecedor-de-refeições e o O2 ativo, todos  envolvendo experiências que transmitem vários conceitos de química, usando exemplos práticos da vida corrente. Uma versão inicial deste projeto foi já publicada no Science in School.
  • Hans Mulder, da Holanda, cujo aquário de-àgua-salgada construído a partir de materiais baratos, permitiu aos alunos estudarem diretamente os hábitos alimentares do verme marinho de cerdas Nereis virens, sem terem de recorrer à disseção destes animais.
  • Thierry Dias e Jimmy Serment da Suíça, cujo projeto “Aprender matemática, fazendo” ofereceu várias abordagens inovadoras, estéticas e divertidas mostrando como aprender matemática, usando origami, puzzles e grandes estruturas geométricas para compreender como diferentes formas se organizam para construir um todo.
  • E, finalmente, Colin Inglis do Reino Unido com o projeto “Alternativas naturais aos antibióticos:  evidência científica ou mito?“.  Neste projeto os alunos testaram óleos essenciais de várias plantas tradicionalmente apresentadas como possuindo propriedades anti-microbianas. As plantas selecionadas como as melhores candidatas a alternativas aos antibióticos foram encaminhadas para Universidade de York no Reino Unido, onde serão submetidas a análises adicionais.

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Web References

  • w1 – EIROforum é uma rede formada por oito das maiores organizações de investigação científica inter-governamentais da Europa que partilham os seus recursos, infrastrutura e conhecimentos para apoiar a ciência europeia, levando-a a alcançar o seu pleno potencial. A publicação do jornal Science in School  faz parte do conjunto de iniciativas educativas e de divulgação científica do EIROforum.
  • w2 – Conheça melhor as atividades do Science on Stage na Europa e informe-se sobre como se pode envolver nessas iniciativas.
  • w3 – O website Science on Stage do Reino Unido apresenta uma versão virtual do festival de 2015 onde poderá consultar os posters dos vários participantes, incluindo todos os projetos vencedores.

Institution

Science on Stage

Author(s)

Laura Howes é uma das editoras do Science in School. Estudou química na Universidade de Oxford no Reino Unido, tendo depois trabalhado para a Royal Chemistry Society, também no Reino Unido, na área da edição e publicação científica e em jornalismo de ciência. Em 2013, Laura mudou-se para o European Molecular Biology Laboratory na Alemanha, para se juntar à equipa do Science in School.




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CC-BY-NC-ND