Explorar artigos de investigação científica na sala de aula Teach article

Traduzido por Maria João Fonseca. Aprenda como usar artigos de investigação nas suas aulas de ciências.

Escolhemos um artigo sobre
o bocejo contagioso em
chimpanzés para ensinar
aos alunos acerca de artigos
de investigação
.
Imagem cortesia de Image
AfrikaForce; fonte da imagem:
Flickr

Os cientistas usam artigos de investigação para comunicar os resultados da sua investigação e as suas afirmações científicas. Estes artigos não são apenas relatórios factuais de trabalho experimental; os autores também tentam convencer o leitor de que o seu argumento está correcto. É agora mais fácil do que nunca ler a investigação original que está por trás das histórias de ciência nos meios de comunicação social, uma vez que cada vez mais artigos de investigação estão a ser disponibilizados gratuitamente através dos sistemas de publicação de livre acesso.

Os artigos de investigação
são geralmente escritos na
terceira pessoa
.
Imagem cortesia de Nicola Graf

Ler artigos de investigação é uma oportunidade para os alunos do ensino secundário aprenderem sobre:

  • A linguagem da comunicação científica (estrutura, vocabulário e convenções, tais como a escrita na terceira pessoa)
  • A forma como os cientistas usam os seus dados para construir um argumento e justificar as suas afirmações
  • A forma como a ciência funciona (delinear a investigação para testar hipóteses; controlar variáveis; apresentar resultados; tirar conclusões; formular novas questões; e partir de conhecimento já existente).

Ler artigos de investigação não é uma tarefa fácil para os alunos, mas eles podem achá-la inspiradora. Aqui descrevemos uma actividade de sala de aula que temos vindo a usar para ensinar alunos com idades entre os 15-16 anos e mais velhos, sobre a estrutura textual (parte 1) e a estrutura argumentativa (parte 2) de um artigo de investigação. Esta actividade demora cerca de três horas. Poderá demorar menos se, após a parte 1, os alunos lerem o artigo como trabalho de casa.

A maioria dos artigos de investigação está escrita em Inglês, a língua da ciência. Se ensinar numa escola em que o Inglês não é a língua oficial, poderá considerar útil envolver o(a) professor(a) de Inglês na actividade.

Começar

Para começar, deve escolher um bom artigo de investigação para utilizar. Os critérios seguintes são essenciais:

  1. Extensão limitada (três páginas no máximo)
  2. Conteúdo apelativo, apropriado à idade dos alunos
  3. Estrutura que inclui as seguintes secções: resumo, introdução, materiais e métodos, resultados, discussão e / ou conclusão
  4. Procedimento experimental fácil de compreender
  5. Relação simples entre os dados e a conclusão
  6. Significância prática ou social evidentes.

Ao escolher o tópico, poderá optar por se focar em algo que seja abordado no currículo. Uma vez seleccionado o tópico, poderá começar por pesquisar artigos de investigação publicados em revistas de livre acesso. Por exemplo, o Directory of Open Access Journalsw1 (DOAJ), um directório de revistas científicas e académicas publicadas em muitas línguas, é um possível ponto de partida. Também recomendamos Biomed Centralw2, uma editora de 220 revistas de biologia e medicina, com revisão por pares, online, de acesso livre. A Public Library of Sciencew3 (PLOS) publica sete revistas de biologia e medicina com revisão por pares, de acesso livre. Ao usar estas colecções, pode procurar artigos sobre um tópico específico ou pesquisar a investigação recente, discussões em destaque e / ou as secções mais vistas.

Assuntos abordados nos
meios de comunicação social
são um bom recurso para
procurar artigos de
investigação
.
Imagem cortesia de Valerie
Everett; fonte da imagem:
Flickr

Outra fonte de inspiração podem ser tópicos abordados em meios de comunicação social, como jornais, revistas de divulgação científica populares, como a New Scientist ou a Science News, ou as suas respectivas páginas de Internet. Estas páginas de Internet geralmente permitem introduzir termos de busca e filtram os resultados por tópico, data e outros critérios; alguns dos artigos incluem sugestões de leitura adicional, tais como os artigos originais, Nesse caso, terá que avaliar se o artigo de investigação em questão corresponde aos critérios de selecção acima listados.

Os artigos de investigação sobre comportamento (animal) or testes de medicamentos têm frequentemente procedimentos experimentais fáceis de compreender. Um bom exemplo é Computer animations stimulate contagious yawning in chimpanzees (Animações de computador estimulam o bocejo contagioso em chimpanzés) (Campbell et al., 2009), que foi referido em vários jornais. Escolhemos este artigo pela sua extensão, o seu conteúdo apelativo (olhar para fotografias de chimpanzés a bocejar, fá-lo(a) bocejar a si também), o procedimento experimental simples e a afirmação científica evidente. A partir da página de Internet da Science in School, pode descarregar mais informação sobre como usámos o artigow4.

1) A estrutura textual do artigo

Vamos começar por analisar o texto e a estrutura de um artigo de investigação. Começa com um título, que resume o estudo e / ou o seu resultado. Segue-se uma lista de autores e as suas afiliações (i.e. para quem trabalham). Normalmente, o primeiro autor é o principal investigador e o último autor é o presidente do Departamento. Depois, as datas de submissão e publicação são fornecidas; isto revela quanto tempo demorou o processo de revisão por pares. Seguidamente, encontramos o resumo, que sumariza o conteúdo do artigo. O corpo principal do artigo começa após o resumo.

Num artigo de investigação, a
pessoa que teve a ideia ou
que fez a maior parte do
trabalho é normalmente o
primeiro autor
.
Imagem cortesia de JJay;
fonte da imagem: Flickr

No corpo principal do artigo, a primeira secção é a introdução. Aqui os autores explicam o contexto do estudo, i.e. aquilo que outros investigadores descobriram, porque é que este estudo é importante (a falha no conhecimento) e aquilo que vão fazer. A segunda secção apresenta os materiais e métodos em detalhe suficiente para que outros cientistas possam repetir a experiência. Na terceira secção, os resultados do estudo são resumidos no texto e apresentados sob a forma de gráficos, diagramas e tabelas. A quarta secção é a discussão dos resultados. Acima de tudo, apresenta a principal conclusão (afirmação), a forma como os dados fundamentam esta conclusão e as implicações para a investigação futura ou para a sociedade. Depois disto, pode também encontrar os agradecimentos em que os autores agradecem a quem contribuiu para a investigação e identificam quem financiou o estudo. A secção de referências lista todas as fontes citadas no artigo.

Para estudar a estrutura textual de um artigo de investigação, forneça a cada aluno uma cópia do artigo, e peça-lhe para responderem a algumas questões básicas. Ao perscrutar o artigo para encontrar as respostas, o(a) seu (sua) aluno(a) familiarizar-se-á rapidamente com a estrutura do artigo de investigação e o seu conteúdo. As questões podem incluir:

  • Quem é o primeiro autor deste artigo? O primeiro autor é normalmente a pessoa que teve a ideia que está por trás da investigação ou que fez a maior parte do trabalho.
  • Quem são os outros autores?
  • Onde é que a investigação foi realizada?
  • Quais as secções incluídas no artigo e o que contém cada secção?
  • Quando é que este artigo foi publicado?
  • Quem financiou esta investigação?

2) A estrutura argumentativa do artigo de investigação

Lembre-se, os cientistas escrevem artigos de investigação para tentar convencer os seus pares a aceitar as suas afirmações científicas. Esta linha de raciocínio é designada por estrutura argumentativa e consiste em: o motivo (porque é que o estudo foi feito), o objectivo (o que foi investigado), a conclusão principal (os resultados do estudo), fundamentos (afirmações, incluindo dados da sua própria investigação), referências (a investigação anterior e contra-argumentos refutados) e uma ou mais implicações (que podem ser uma nova teoria, uma nova questão de investigação, ou o impacto para a sociedade ou comunidade de investigação). Cada um destes elementos encontra-se normalmente numa secção específica do artigo de investigação (figura 1).

Figura 1: A estrutura argumentativa de um artigo de investigação e a localização dos diferentes elementos no texto.
Imagem cortesia de Miriam Ossevoort

O próximo passo na actividade é considerar a estrutura argumentativa em maior detalhe. Os alunos podem ler o artigo completo detalhadamente, trabalhando individualmente ou em pequenos grupos para responder a questões orientadas. De seguida, as respostas podem ser discutidas de forma a potenciar a compreensão dos alunos.

Antes de mais, deixe os seus alunos lerem a introdução, e de seguida peça-lhes para responderem às seguintes questões:

  • Porque é que este estudo foi feito (motivo)?
  • O que é que foi investigado (objectivo)?

De seguida passa-se à secção de materiais e métodos. Pela nossa experiência, os alunos consideram frequentemente que esta secção é difícil de compreender devido ao seu vocabulário altamente técnico. Como tal, sugerimos que explique simplesmente como é que o estudo foi realizado.

Depois, os alunos podem ler as secções de resultados e discussão e responder às questões apresentadas em baixo quer como trabalho de casa quer na sala de aula. Peça-lhes para:

  • Identificarem a conclusão principal (resultado do estudo), fundamentos para esta conclusão principal (dados do estudo ou de investigação anterior) e as implicações (ex. necessidade de estudo adicional ou impacto na sociedade).
Imagem cortesia de Nicola Graf

Se os seus alunos tiverem dificuldade em identificar estes elementos, deixe-os discutir as suas respostas em grupo antes de as partilharem com a turma toda. Uma boa forma gráfica de fazer isto é criar um poster com uma estrutura semelhante à figura 1. Os alunos podem então rever o seu poster numa discussão em sala de aula.

No final desta actividade de sala de aula, poderá querer escrever a estrutura argumentativa completa do artigo de investigação no quadro. Finalmente, encoraje os seus alunos a discutir se concordam com o principal dos autores (conclusão principal) e a rever o artigo como um todo, simulando o papel de um revisor. Pode utilizar uma dramatização sobre a revisão por paresw5, desenvolvida por Sense about Science.

Há inúmeras histórias nos meios de comunicação social acerca do bocejo contagioso, pelo que este tópico também seria ideal para trabalhar com artigos de notícias. Para mais informação acerca de como utilizar artigos de notícias nas aulas de ciências, ver Veneu-Lumb and Costa (2010).

Como actividade complementar, poderia pedir aos seus alunos para realizarem a sua própria versão da experiencia descrita no artigo de investigação. Por exemplo, se tiver usado o artigo que escolhemos, os seus alunos poderiam exibir um vídeo do Youtube com bocejos (pesquise ‘bocejo contagioso’) a alunos de outra turma (que não sabiam aquilo que estava a ser testado) e verificar quão frequentemente eles bocejam. Como controlo, poderiam visualizar um vídeo de duração semelhante que não aborde bocejos.

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References

Web References

  • w1 – O Directory of Open Access Journals (DOAJ) é um directório de revistas científicas e académicas publicadas em muitas línguas
  • w2 – Biomed Central é a editora de 220 revistas de biologia e medicina, com revisão por pares, online, de acesso livre.
  • w3 – A Public Library of Science (PLOS) publica sete revistas de biologia e medicina com revisão por pares, de acesso livre.
  • w4 – A partir da página de Internet da Science in School, pode descarregar uma análise aprofundada da estrutura de Campbell et al. (2009) como um ficheiro Word ou PDF.
  • w5 – Numa dramatização em sala de aula, os alunos encenam o processo de revisão por pares, avaliando a qualidade de um estudo simulado acerca do efeito do chocolate na pressão sanguínea. Os materiais para a dramatização e alguma informação de apoio podem ser descarregados a partir da página de Internet da Sense about Science.

Resources

  • Muitos dos artigos da Science in School estão ligados a artigos de investigação publicados na prestigiada revista científica, Nature. Estes artigos podem ser descarregados gratuitamente a partir da página de Internet da Science in School. Explore no nosso arquivo artigos que estão ligados a artigos da Nature.
  • Em 2011, a Royal Society, a mais antiga academia científica ainda em actividade, disponibilizou gratuitamente online todo o seu arquivo histórico de revistas.
  • Para saber mais acerca da autoria de artigos, ver:

Author(s)

Miriam Ossevoort é professora assistente de educação e comunicação de ciência na University of Groningen, Holanda, e faz investigação educacional acerca da leitura de ciência.

Marcel Koeneman é professor de biologia e química numa escola secundária internacional na Holanda. Também está a trabalhar num Doutoramento sobre como utilizar artigos de investigação na sala de aula.

Martin Goedhart é professor catedrático de educação de ciência e matemática na University of Groningen, Holanda.


Review

Ao usar a actividade sugerida para discutir ou explorar com os alunos alguns artigos de investigação bem escolhidos, os professores podem não só aprofundar o conhecimento dos seus alunos acerca da investigação científica em questão, mas também ajudá-los a aproximarem-se mais das actividades profissionais de um cientista.

Para além das questões colocadas no artigo, o professor poderia também pedir aos alunos para discutirem a revisão por pares. Por exemplo, o que é a revisão por pares? Porque é que é feita? Por quantos revisores? Porque é que é importante (ou desejável) que o processo de revisão seja anónimo? O que é a revisão por pares duplamente anónimo (double-blind)? Os alunos poderiam também considerar a secção de agradecimentos e discutir como a ciência é financiada.

Algumas estratégias complementares incluiriam pedir aos alunos para delinearem o seu próprio projecto de investigação e escreverem um pequeno artigo de investigação. Se isto fosse feito em duas turmas diferentes, os alunos poderiam então rever os artigos de investigação da outra turma, que teria investigado o mesmo tópico ou um outro semelhante.

As aulas de ciências e os grupos de idade aos quais dirigir a actividade dependeriam do artigo de investigação escolhido pelo professor. Contudo, a estratégia seria particularmente útil para alunos do ensino secundário (idades 15-18). O facto de a maioria dos artigos de investigação estarem em Inglês não deve ser vista como um obstáculo, mas sim como uma oportunidade de implementar projectos interdisciplinares com professores de línguas.


Betina da Silva Lopes, Portugal




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