Intersexo: caindo fora da norma Understand article

Traduzido por Michele Cristovao. Sexo masculino ou feminino? Quais são as questões que rodeiam crianças para quem a resposta não é clara? Os investigadores Eric Vilain e Melissa Hines esperam obter algumas das respostas.

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“É rapaz ou rapariga?” É frequentemente a primeira questão colocada quando uma criança nasce, e é largamente assumido que a resposta é fácil. Cromossomas sexuais XY = testiculos e pénis = rapaz; cromossomas sexuais XX = ovários e vagina = rapariga. Mas não é sempre tão fácil. Algumas crianças nascem intersexuais, não sendo totalmente do sexo masculino nem totalmente do sexo feminino, mas algures no meio.

Por exemplo, podem parecer femininas exteriormente mas ter uma anatomia mais típica de rapazes. Ou podem ter orgãos genitais ambíguos: a rapariga pode ter um clítoris visivelmente maior, ou não possuir uma abertura vaginal, ou um rapaz pode nascer com um pénis visivelmente pequeno, ou com um escroto dividido, de modo a parecer mais um lábio. Além disso, algumas crianças nascem com uma genética mosaica, de modo que algumas das suas células têm cromossomas XX e algumas XY.

Porquê? Bom, existem vários tipos diferentes de intersexo e nós ainda não percebemos tudo, mas a genética e níveis hormonais no útero da mãe durante a gravidez são duas influências conhecidas.

Na mitologia grega,
Hermafrodito, o filho de
Hermes e Afrodite, possuia
traços físicos de ambos os
sexos

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Para estudar o papel que a genética tem na determinação do nosso sexo, os genes que se pensam estar envolvidos são modificados e o resultado observado para ver se a alteração esperada ocorre. Por questões éticas, este tipo de experiência não pode ser efectuada em humanos, e por isso são usados animais. O professor Eric Vilainw1, um médico e geneticista da Universidade de Califórnia, Los Angeles (UCLA) nos EUA, é um investigador que trabalha nesta área. 

Costumava pensar-se que se tivesses um cromossoma Y, alguns dos genes contidos neste (conhecidos como pro-masculinos) garantiam que serias do sexo masculino; se não tivesses um cromossoma Y, não serias do sexo masculino, mas sim – por exclusão de partes – do sexo feminino. Eric e os seus colegas, no entanto, revogaram esta teoria quando encontraram genes pro-femininos – genes que na realidade codificam caracteristicas femininas (Jordan, 2003). “Nós mostrámos que a determinação sexual é muito mais um equilíbrio delicado entre genes masculinos e femininos”,” diz Eric. Agora pensa-se que um distúrbio neste equilíbrio possa ocorrer em alguns tipos de intersexo.

Outra causa frequente de intersexo em raparigas é um desiquilíbrio hormonal, onde um defeito genético causa a produção de níveis elevados de testosterona e outras hormonas masculinas pela glândula suprarrenal do feto. Isto é denominado hiperplasia suprarrenal congénita (HSC). A Professora Melissa Hinesw2, que investiga a condição na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, explica: “A testosterona faz com que o clitorís cresça, de modo a que pareça como algo entre um clitorís e um pénis, e leva à fusão dos lábios, de modo a que pareça como algo entre lábios e um escroto. “Esta condição é identificada à nascença e tratada, e as crianças são criadas como raparigas. O tratamento envolve normalisar os níveis hormonais, muitas vezes suportado por cirurgia por razões cosméticas e para corrigir problems com a uretra e a abertura vaginal.

Impacto psicológico

Apesar the haver tratamentos clínicos disponíveis para a maioria dos tipos de condições intersexuais, a questão está recheada de problemas psicológicos e éticos. O Eric é um dos investigadores interessados em descobrir uma maneira melhor de gerir intersexo e a sua percepção na sociedade.

“Pais ficam extremamente estressados com o nascimento de um bebé com orgãos genitais ambíguos”, explica. Impaciência em “consertar” a criança pode levar a cirurgia genital muito cedo na vida – muits vezes no primeiro ano. Mas não é claro se isto é a melhor solução para a criança. Além de sentir que elas não teriam escolhido o tratamento para elas próprias, ciranças nascidas intersexuais podem ter questões com vergonha e sigilo quando crescem. “A muitos pacientes que eu vejo com condições intersexuais só foi contado o que aconteceu muito tarde na adolescência, e muitas vezes eles ficam muito zangados com a família por os terem protegidos”. Operações precoces também podem ter um impacto negativo na função sexual, mais tarde na vida.

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Por isso, será melhor não interferir com a natureza? “Nós realmente não sabemos,” diz Eric. “Existe um número muito pequeno de pacientes que não foram operados, por isso nós não sabemos como seria viver com orgãos genitais ambíguos, e talvez também seja problemático psicológicamente.

Mas como é com a identidade sexual: as crianças nascidas intersexuais têm problemas em se sentir verdadeiramente parte de um sexo ou outro? Não, responde Eric. “ A maioria das pessoas intersexuais que eu conheço estão na verdade bem dentro de um certo sexo.”

Questões de comportamento

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Entretanto,  Melissa está interessada em perceber qual é o impacto que HSC tem no comportamento condicionado pelo género – como é que o comportamento de crianças intersexuais se compara com o de raparigas e rapazes típicos – mais tarde na vida. “Nós, e outros, descobrimos que o comportamento na brincadeira de raparigas com HSC é diferente do de outras raparigas”, explica. O grupo dela assessa as escolhas feitas em termos de brinquedos por raparigas de três a oito anos de idade, que foram tratadas por HSC logo após o nascimento. “A maioria das raparigas tendem a escolher bonecas mais do que escolhem veículos ou armas. Mas raparigas com HSC estão no meio. Elas mostram mais interesse nos brinquedos típicos de rapaz e menos interesse nos brinquedos típicos de rapariga.”

Esta investigação comportamental de HSC faz parte de um estudo mais alargado liderado por Melissa, sobre o desenvolvimento específico do género em todas as crianças. “Porque é que raparigas e rapazes gostam de brinquedos diferentes? Porque é que crianças se juntam para brincar com outras do mesmo sexo? Porque é que os rapazes são, digamos, mais rijos e resistentes a choques que as raparigas?” são apenas algumas das perguntas que ela está a tentar responder. E comparando comportamentos de brincadeira e níveis hormonais maternais durante a gravidez é a sua ferramenta de escolha.

Structura química da
testosterona, a hormona
masculina principal

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Fetos do sexo masculino produzem um surto de testosterona entre 8 e 24 semanas de gravidez. Este depois decresce, e à parte de um pequeno surto após a gravidez, os níveis de testosterona em rapazes e raparigas permanece aproximadamente o mesmo até à puberdade. Num estudo de 14 000 crianças, a Melissa descobriu que mães com níveis de testosterona mais elevados durante a gravidez eram mais prováveis ter raparigas que eram mais masculinas dentro dos níveis normais, e que mães com níveis de testosterona mais baixos eram mais prováveis ter raparigas menos masculinas.

Os estudos observacionais de Melissa permitem o estudo directo de humanos, em contraste a e complementando a estratégia genética de Eric. O Eric tem esperança que a sua pesquisa e a de outros sobre condiçoes intersexuais levem eventualmente a uma vida mais fácil para os que caem fora dos parâmetros normais aceitados pela sociedade. “Sentir-me-ei feliz se eu alcançar o objectivo de comunicar ao público geral que todas as aquelas variações de desenvolvimento sexual, orientação sexual e identidade do género são variantes naturais, e se, porque nós percebemos que elas são variantes normais, elas forem aceitadas na sociedade”.

Determinação sexual em ratos

Ciêntistas do European Molecular Biology Laboratory (EMBL)w4 (Laboratório Europeu de Biologia Molecular) e do UK’s National Institute for Medical Research (Instituto Nacional de Investigação Médica do Reino Unido) descobriram que se o gene Foxl2 localizado num cromossoma não sexual for desligado, células nos ovários de ratos do sexo feminino adultos se transformam em células tipicamente encontradas nos testículos.

Tradicionalmente, tem-se assumido que a via feminina – o desenvolvimento de ovários e todas as outras características que compoem uma pessoa do sexo femenino – foi uma omissão: se um embrião tinha um gene chamado Sry, localizado on cromossoma Y, desenvolver-se-ia numa pessoa do sexo masculino; se não, o resultado seria uma pessoa do sexo feminino. Mas em animais adultos, é a via masculina que necessita ser activamente suprimida, como descobriu Mathias Treier e a sua equipa no EMBL.

“Ficámos surpreendidos ao ver o resultado”, disse Mathias. “Quando desligámos o gene Foxl2 nos ovários de ratos do sexo feminino, nós esperávamos que os ratos parassem de produzir oócitos, mas o que aconteceu foi muito mais dramático: as células somáticas que suportam o desenvolvimento do óvulo adquiriram as características de células que geralmente suportam o desenvolvimento do esperma, e as células  que produzem hormanas specifícas do sexo também se transformaram de células típicas do sexo feminino em células típicas do sexo masculino”.

Estas descobertas terão implicações muito abrangentes para medicina reprodutiva e pode ser usada no tratamento de crianças intersexuais.

Para mais detalhes, vê a entrevista online com Mathias Treierw5 e a publicação da investigação (Uhlenhaut et al. 2009).

O EMBL é membro do EIROforumw6, a editora de Science in School.


 

Agradecimentos

Este artigo é baseado em entrevistas dadas pelo Professor Eric Vilain e pela Professora Melissa Hines aos editores da Science in School, Dr. Eleanor Hayes e Dr. Marlene Rau. Algum material foi também retirado da aula de Melissa Hinesw3. A aula e a entrevista tiveram lugar durante a conferência “A diferença entre os Sexos – da Biologia ao Comportamento”, no European Molecular Biology Laboratory (EMBL) (Laboratório Europeu de Biologia Molecular), em Heidelberg, na Alemanha.

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Resources

Author(s)

Dr. Nina Notman é escritora e editora cientifica. Após o doutoramento em química síntética orgânica na Universidade de Bristol, Reino Unido, ela começou uma carreira em publicação, gerindo o processo de revisão por pares de um número de Journais da UK Royal Society of Chemistry (Sociedade Real de Química do Reino Unido). A seguir, ela mudou-se para journalismo de ciência, trabalhando na revista líder da sociedade, Chemistry World (Mundo da Química). No início de 2012, Nina deixou a revista e tornou-se independente.


Review

Intersexo ou fenótipos sexuais ambiguous não são tópicos comuns para discussão, na escola ou mais geralmente, pois uma aura de embaraço ou vergonha proibem qualquer menção a patologia sexual.

Este artigo, baseado em entrevistas com dois investigadores no campo, introducem o leitor a este tópico complicado numa linguagem clara, realçando alguns aspectos científicos e sociais. Eu gostei especialmente da consideração do impacto psicológico de uma condição intersexual e dos problemas que rodeiam o tratamento e a criação de crianças intersexuais.

Como descrito no artigo, o estatuto e a gestão da condição intersexual é um problema controverso, podendo ser usado beneficialmente para discussão na aula, especialmente com alunos do ensino secundário superior. Seria particularmente aplicável em biologia (por exemplo, reprodução humana), ou em educação sexual ou lições de cidadania. A discussão poderá envolver muitos aspectos culturais, bio-éticos e legais, incluindo identidade sexual e de género, os direitos e obrigações dos pais de uma criança intersexual, o princípio de autonomia de pacientes sobre tratamentos médicos, e a aceitação social de pessoas intersexuais.

Possíveis questões de comprehensão incluem:

  1. Quais dos factores seguintes não é referido no artigo como afectando o desenvolvimento sexual em humanos?
    1. Cromossomas X e Y
    2. Genes pro- masculinos e pro- femininos
    3. Exposição ao alcoól durante a gravidez
    4. Níveis hormonais durante a gravidez
  2. O tópico da investigação de Melissa Hines é:
    1. O comportamento de brincadeira de rapazes CSH
    2. O comportamento de brincadeira de raparigas CSH
    3. O role dos genes no desenvolvimento sexual
    4. O comportamento de brincadeira de mulheres grávidas

Além disso, os cursos na internet oferecem não só informação e materiais adequados para alunos do ensino secundário, mas também informação adicional sobre o estudo e gestão de condições intersexuais.

Eu recomendo este artigo a professors de ciência e alunos da escola secundária superior que estão interessados a perceber esta condição geralmente escondida e motivá-los a promover uma aceitação social de pessoas intersexuais.


Giulia Realdon, Itália




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