|
Categories:
Topics:
Tools
O LHC: um olhar no interiorSubmitted by rau on 13 October 2009
Traduzido por: Helena Santos
O acelerador O Large Hadron Colliderw1 (LHC) da European Organization for Nuclear Research (CERN) é um instrumento científico gigantesco situado na fronteira franco-suíça, próxima de Genebra, Suíça. O acelerador de partículas, maior e mais potente do mundo, será usado por 10000 físicos de 80 países para procurar partículas com o objectivo decifrar a cadeia de acontecimentos que moldaram o universo uma fracção de segundo após o Big Bang. O LHC poderá resolver puzzles que vão desde as propriedades das partículas elementares até às maiores estruturas existentes na vastidão do universo.
A experiência consiste num processo simples: o LHC fará colidir dois hadrões – sejam protões, sejam núcleos de chumbo – a velocidades muito próximas da velocidade da luz. Os elevadíssimos níveis de energia atingidos permitirão que a energia cinética das partículas em colisão se transforme em matéria, de acordo com a equação de Einstein, E=mc2. Todas as partículas, assim criadas na colisão, serão detectadas e medidas. Este acontecimento repetir-se-á 600 milhões de vezes por segundo e por vários anos. O LHC realizará principalmente colisões entre protões, que serão estudadas por três dos seus quatro detectores (ATLAS, CMS e LHCb). No entanto, durante várias semanas por ano, iões pesados (núcleos de chumbo) serão acelerados e colidirão, por forma a serem estudados principalmente pelo detector de ALICE.
![]() A cavidade supercondutora de aceleração actua como o surf no mar Imagem cortesia do CERN As partículas entram no LHC a 99.9997828 % da velocidade da luz. Após a aceleração elas atingem 99.9999991 %. Esta é aproximadamente a velocidade máxima que pode ser alcançada, uma vez que, de acordo com a teoria da relatividade, nada pode ser mais rápido do que a luz. Embora possa parecer um ganho insignificante, próximo da velocidade da luz, mesmo uma pequena aceleração resulta num ganho elevado em massa; e este é um factor importante a ter em conta. Um protão em repouso tem a massa de 0.938 GeV (938 milhões de electrão-volt). Os aceleradores conduzem os protões a uma massa final (ou energia, que neste caso é praticamente a mesma coisa) de 7 tera electrão-volt (ou 7 TeV). Se pudéssemos – hipoteticamente – acelerar uma pessoa de 100 kg no LHC, a sua massa final seria de 700 toneladas. Os magnetos têm uma concepção especial 2 em 1: eles contêm duas bobinas magnéticas no interior, cada uma rodeando um dos dois tubos de feixe. A corrente percorre estas bobinas para criar dois campos magnéticos, apontando num sentido num dos tubos e no sentido contrário no outro. Assim, duas partículas (protões ou núcleos de chumbo) com a mesma carga eléctrica, percorrem o mesmo caminho, mas em sentidos opostos – uma em cada tubo de feixe. Para além dos magnetos dipolares existem ainda magnetos quadripolares (com quatro polos magnéticos) para focar os feixes, e milhares de pequenos sextopolos e octopolos (com seis e oito polos magnéticos, respectivamente) para corrigir o tamanho e a posição dos feixes. Todas as bobinas magnéticas e cavidades de aceleração são construídas a partir de materiais especiais (nióbio e titânio) que se tornam supercondutores a muito baixas temperaturas, por forma a produzir campos eléctricos e magnéticos sem resistência. Para atingir a máxima performance, os magnetos têm de ser arrefecidos a -271.3ºC (1,9 K) – uma temperatura mais fria do que a do espaço inter-galático. Para arrefecer os magnetos, grande parte do acelerador está ligada a um sistema de distribuição de azoto líquido e hélio (ver caixa). Apenas um oitavo do sistema de distribuição de criogenia seria suficiente para qualificar este sistema como o frigorífico mais potente do mundo. No anel existem quatro locais, nos quais a cadeia de magnetos é quebrada: eles contêm as quatro grandes cavernas das experiências do LHC e seus detectores. Nestes locais, as trajectórias dos feixes interior e exterior são forçadas a cruzar-se e trocar de lugar em tubos com uma forma especial em X. Em todos os quatro tubos com a forma X, os feixes cruzam-se formando um ângulo de 1,5º, permitindo assim a sua convergência, necessária para a colisão. Um único pacote de protões, viajando com a máxima velocidade, tem a mesma energia cinética do que um elefante pesando 1 tonelada e correndo a 50 km/h. A energia total contida no feixe é 315 megajoules (MJ), suficiente para derreter aproximadamente 500 kg de cobre. Sendo assim, esforços consideráveis na segurança do LHC foram realizados. Existem sensores que detectam imediatamente qualquer instabilidade do feixe, e, em caso de necessidade, no espaço de três voltas ao anel (i.e., em menos de um milésimo de segundo) o feixe será deflectido para uma espécie de saída de emergência, onde será absorvido por placas de grafite e de betão antes de poder causar qualquer dano (ver diagrama acima). As Experiências No LHC colidem dois protões com uma energia cinética total de 7 + 7 = 14 TeV (ou dois iões de chumbo com uma energia total de 1140 TeV) e serão detectadas novas partículas, produzidas pelo facto da a energia cinética se transformar em matéria. De acordo com a física quântica, estas colisões darão origem a todas as partículas do Modelo Padrão (tal como descrito em Landua & Rau, 2008) mediante certas probabilidades. No entanto, a probabilidade de gerar as partículas pesadas, procuradas pelos cientistas, é muito pequena. Poucas colisões serão suficientemente fortes para produzir este tipo de partículas. A teoria prevê que o bosão de Higgs (para aprender mais sobre esta partícula aceda a Landua & Rau, 2008) ou outros fenómenos, nunca antes ocorridos e que também são alvo de investigação, serão produzidos muito raramente (tipicamente uma em 1012 colisões) e, portanto, será necessário o estudo de muitas colisões, por forma a encontrar “uma agulha num palheiro”. Daí que o LHC tenha de funcionar durante muitos anos, 24 horas por dia. Os eventos (um evento é o nome que se dá a uma colisão com todas as partículas resultantes) serão estudados em grandes detectores, capazes de reconstruir a história das colisões e de guardar as suas elevadíssimas taxas de ocorrência. Estes detectores são comparáveis a enormes câmaras digitais que podem tirar até 40 milhões de fotografias por segundo (com informação proveniente de 10 milhões de sensores). Os detectores são construídos com uma estrutura em camadas, tendo cada uma uma funcionalidade distinta (ver o diagrama). As camadas interiores são menos densas, enquanto as exteriores são mais densas e mais compactas. As partículas pesadas que os cientistas esperam produzir nas colisões do LHC têm previsivelmente uma vida muito curta, decaindo rapidamente em outras partículas, mais leves e conhecidas. Após uma forte colisão, centenas destas partículas leves, por exemplo electrões, muões ou fotões e, também ,protões, neutrões e outras, viajam através do detector com uma velocidade próxima da velocidade da luz. Os detectores usam estas partículas leves para deduzir a existência das novas e mais pesadas partículas. Os detectores envolvem hermeticamente a região de interacção para que a energia e o momento totais de cada evento possam ser medidos, bem como a sua história possa ser reconstruída em detalhe. A informação combinada das diferentes camadas do detector permite determinar o tipo de partícula através do seu rasto. As partículas carregadas – electrões, protões e muões – deixam traços por ionização. Os electrões são muito leves e portanto perdem a sua energia rapidamente, enquanto os protões penetram mais profundamente nas diferentes camadas do detector. Os fotões não deixam traços, mas nos calorímetros cada fotão converte-se num electrão e num positrão, cujas energias são então medidas, permitindo assim deduzir a energia do fotão inicial. A energia dos neutrões é medida indirectamente: os neutrões transferem a sua energia aos protões e são estes que depois são detectados. Os muões são as únicas partículas que atingem as camadas mais externas do detector (ver o diagrama abaixo) e nas quais são detectados. Cada parte de um detector está ligada a um sistema electrónico de registo de acontecimentos através de milhares de cabos. Assim que um impulso é registado, o sistema guarda o local e tempo exactos e envia a informação para um computador. Várias centenas de computadores trabalham em conjunto por forma a combinar a informação. No topo da hierarquia dos computadores existe um sistema que decide rapidamente (numa fracção de segundo) se o evento é interessante, ou não. Existem diferentes critérios para seleccionar os eventos potencialmente interessantes e reduzir as enormes quantidades de dados. Dos 600 milhões de eventos iniciais por segundo, restarão umas escassas centenas. Serão estes os eventos posteriormente analisados em detalhe. Os detectores do LHC foram desenhados, construídos e regulados por colaborações internacionais que reúnem cientistas de institutos provenientes de todo o mundo. No total, existem quatro grandes (ATLAS, CMS, LHCb e ALICE) e duas pequenas (TOTEM e LHCf) experiências no LHC. Considerando que foram necessários 20 anos para planear e construir os detectores e que se pretende que eles funcionem por mais 10 anos, a duração total das experiências é quase equivalente à duração da carreira de um físico. A construção destes detectores é o resultado do que se poderia chamar de “group intelligence”: enquanto os cientistas que trabalham num detector compreendem a sua função no geral, nenhum deles está familiarizado com todos os detalhes e funções precisas de cada parte isolada. Em tais colaborações, cada cientista contribui com a sua especialização para o sucesso colectivo. ATLAS e CMS
LHCb A experiência LHCbw4 ajudar-nos-á a compreender porque razão vivemos num universo que aparenta ser constituído quase inteiramente por matéria e não por anti-matéria. É uma experiência especialmente vocacionada para investigar as pequenas diferenças entre a matéria e a anti-matéria através do estudo de uma partícula denominada por quark ‘bottom’, b (para uma explicação da anti-matéria e tipos de quarks ver Landua & Rau, 2008). Para identificar e medir os quarks b e os seus respectivos parceiros de anti-matéria, os anti-quarks b, o LHCb tem detectores de traços que são móveis e muito sofisticados, localizados muito próximo do feixe que circula no LHC. ![]() Os lideres do projecto do íman do LHCb; também visíveis estão as bobinas do grande magneto dipolar. Abril de 2004 Imagem de cortesia do CERN ALICE
O desafio dos dados O LHC produzirá anualmente 15 petabytes (15 milhões de gigabytes) de dados, suficientes para preencher mais de 3 milhões de DVD. Milhares de cientistas de todo o mundo pretenderão aceder e analisar estes dados; assim o CERN está em colaboração com instituições de 33 países para operar a infra-estrutura de armazenamento e computação de dados: a LHC Computing Grid (LCG). O LCG permitirá que os dados das experiências do LHC possam ser distribuídos por todo o planeta, com uma gravação primária armazenada no CERN. Após um processamento inicial, os dados serão distribuídos por onze grandes centros de computadores. Estes centros, denominados por “tier-1”, disponibilizarão os dados a mais de 120 centros “tier-2” para tarefas de análise específicas. Cientistas individuais poderão aceder, assim, aos dados do LHC a partir dos seus países de origem, usando centros de computadores locais, ou mesmo, computadores pessoais. Quem trabalha no LHC? Liz Gregson do Imperial College London, UK, fala com diversos cientistas do CERN. Katharine Leney, física de ATLAS
Dr. Marco Cattaneo, Coordenador de Projecto
Este texto foi publicado no Imperial College London alumni magazine, Imperial Matters. Enquanto vamos para o prelo: uma fuga de hélio no LHC Ao meio dia de 19 de Setembro de 2008, nove dias depois do arranque, um incidente ocorreu num dos oito sectores (sector 3-4) do LHC. A causa foi uma falha eléctrica da ligação supercondutora entre dois dos magnetos do LHC. Quando a corrente eléctrica atingiu mais de 9000 A, parte do cabo desenvolveu uma resitência eléctrica que resultou numa enorme potência resistiva. Num segundo, o arco eléctrico provocou uma rotura no tubo de hélio e originou o derrame de mais de uma tonelada de hélio líquido no dispositivo de vácuo isolante do sistema de arrefecimento. Uma vez que vários magnetos partilham um sistema de vácuo isolante comum, o aumento de pressão resultante provocou danos em 24 dos magnetos dipolares e cinco quadripolares. Enquanto vamos para o prelo, o sector 3-4 é trazido à temperatura ambiente, por forma a que as reparações possam ser efectuadas. Pelo menos 29 magnetos terão de ser removidos, trazidos para a superficíe, reparados, testados, e depois reinstalados e ligados. Os tubos do feixe terão de ser cuidadosamente limpos. Enquanto que estas reparações levariam não mais do que poucas semanas num acelerador de partículas convencional, a complexidade das instalações supercondutoras do LHC requer vários meses de trabalho e mais cerca de seis semanas para arrefecer os magnetos deste sector, de volta a uma temperatura de 1.9 K. As previsões para a retoma de funcionamento do LHC e para as primeiras colisões apontam para 2009. No primeiro artigo (Landua & Rau, 2008), Rolf Landua e Marlene Rau dão uma introdução sobre a física de partículas no LHC. Referências Landua R, Rau M (2008) LHC: um passo mais na direcção do Big Bang. Science in School 10: 26-33. www.scienceinschool.org/2008/issue10/lhcwhy/portuguese Referências da Internet w1 – Um guia para o Grande Acelerador de Hadrões encontra-se em: http://cdsweb.cern.ch/record/1092437/files/CERN-Brochure-2008-001-Eng.pdf
w2 – Para mais informação sobre a Experiência ATLAS ver: http://atlas.ch w3 – Para mais informação sobre a Experiência CMS ver: http://cms-project-cmsinfo.web.cern.ch/cms-project-cmsinfo/index.html w4 – Para mais informação sobre a Experiência LHCb ver: http://lhcb-public.web.cern.ch/lhcb-public w5 – Para mais informação sobre a Experiência ALICE ver: http://aliceinfo.cern.ch/Public/Welcome.html Existe um livro de Rolf Landua (em alemão) com bastantes detalhes sobre o Modelo Padrão e as experiências do LHC:
Boffin H (2008) “Intelligence is of secondary importance in research”. Science in School 10: 14-19. www.scienceinschool.org/2008/issue10/tamaradavis Warmbein B (2007) Making dark matter a little brighter. Science in School 5: 78-80. www.scienceinschool.org/2007/issue5/jennylist O site do CERN dedica um espaço significativo ao LHC; ver: http://public.web.cern.ch/public/en/LHC As páginas do CERN oferecem material importante para o ensino da física das partículas e aceleradores: http://education.web.cern.ch/education/Chapter2/Intro.html Incluído neste material didático existe online um jogo sobre o LHC em inglês, francês, alemão e italiano: http://microcosm.web.cern.ch/microcosm/LHCGame/LHCGame.html O site inglês do LHC inclui material sobre o LHC destinado a professores e estudantes: www.lhc.ac.uk Rolf Landua é o chefe do Projecto Educacional no CERN, onde tem vindo a trabalhar desde 1980. Enquanto físico de partículas alemão, ele foi co-fundador da Fábrica de Anti-matéria do CERN e liderou o projecto ATHENA, que criou milhões de átomos de anti-hidrogénio em 2002. Ele é (secretamente) famoso pelo modelo do personagem de Leonardo Vetra, um físico da anti-matéria do CERN que foi assassinado nas primeiras páginas do livro de Dan Brown, Anjos e Demónios. Este livro deu origem recentemente (Maio de 2009) a um filme de Hollywood. Ele tem cursos no CERN para professores oriundos de toda a Europa, colabora regularmente em programas de rádio e de televisão e publicou recentemente um livro, em alemão, sobre a física de partículas no CERN (Am Rand der Dimensionen, On the Border of the Dimensions, ver recursos). Pela sua dedicação à divulgação científica nas escolas, ele recebeu o prémio de comunicação da Sociedade Europeia de Física em 2003.
|