Crime e conservação: combate ao tráfico ilegal de chifres de rinoceronte Inspire article

Traduzido por: Bruno Fontinha. Como as tentativas de salvar o rinoceronte continuam a falhar, será que é altura de envolver as comunidades locais?

Quando Annette Hübschle entrou pela primeira vez no Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique, para começar o trabalho de campo para o seu doutoramento, foi surpreendida. “Foi surreal”, diz Annette. “A realidade da situação atingiu-me assim que entrei no parque. Arqueiros armados com espingardas estavam a correr por alí, e um deles parou para falar. Ele disse-me: os caçadores vivem pelo lema ‘fique rico jovem ou morra a tentar’. Eles vivem pela arma, morrem pela arma.”

Como criminologista e socióloga, Annette tinha estudado anteriormente o crime organizado em África, que vai desde o mercado de drogas ao tráfico de seres humanos. Agora estava prestes a embarcar numa jornada para estudar uma mercadoria com um valor de rua maior que a heroína ou cocaína: chifre de rinoceronte.

As populações de rinocerontes têm diminuído dramaticamente nos tempos recentes devido à caça furtiva dos seus chifres.
Free-Photos/pixabaz.com, CC0

Investigando o comércio de chifre de rinoceronte

Ao ter crescido na Namíbia, Annette esteve sempre consciente das ameaças aos rinocerontes. “Eu era uma adolescente durante a crise da caça de rinocerontes no final dos anos 80 e início dos anos 90, e sabia que os rinocerontes estavam ameaçados”, diz ela. “Quando se cresce no continente africano, muitas vezes está-se cercado por áreas de conservação. Está-se também ciente dos problemas da vida selvagem, bem como dos problemas históricos mais amplos associados às áreas protegidas.”

Criminologist and sociologist Annette Hübschle
Criminologista e socióloga
Annette Hübschle

Annette Hübschle
 

Quando a oportunidade apareceu para estudar o mercado ilegal de chifres de rinoceronte, Annette soube logo que era a àrea certa para ela. Começou o seu PhD em 2011 no Max Planck Institute for the Study of Societies e na Universidade de Colónia, Alemanha. Durante aquela altura, a caça furtiva de rinocerontes tinha-se tornado um sério problema. Nos 14 meses que se seguiram, Annette viajou para sete países e entrevistou mais de 400 pessoas de modo a mergulhar no mundo devastador do comércio ilegal de chifre de rinoceronte, conseguindo seguir a sua jornada desde o sul da África até aos mercados consumidores no sudeste da Ásia, onde o seu suposto valor medicinal e uso como um símbolo de status estão a impulsionar a respectiva procura.

Ao longo do seu trabalho de campo, Annette entrevistou criadores de rinocerontes, comunidades locais, contrabandistas e caçadores. “Na África do Sul, há uma enorme variedade de pessoas envolvidas no tráfico de animais selvagens em diferentes níveis, incluindo pilotos de helicópteros, veterinários da vida selvagem, produtores de caça, autoridades de conservação, polícia e até ministros do governo”, diz Annette. No entanto, o que ela achou mais interessante, através de conversas com caçadores furtivos de baixo escalão, foi que muitos deles sentiram descontentamento com as autoridades do parque, os funcionários anti-caça furtiva o governo. Ela destaca que a conservação da vida selvagem continua a beneficiar as elites económicas e políticas: o Estado, caçadores, agricultores e operadores turísticos. “Muitos caçadores furtivos com quem conversei sentiam que haviam sido deixados sem oportunidades; a terra costumava pertencer-lhes, mas agora essas áreas do parque nacional – junto com os direitos de caça e acesso a recursos naturais – são inacessíveis para eles ”, diz ela.

Nas entrevistas que Annette conduziu, muitos moradores locais expressaram sentimentos de raiva, falta de poder e marginalização. Uma idosa, que se tinha mudado recentemente de um parque nacional, disse: “Não há paz aqui, não há esperança. Eles podem entregar-te uma casa e, no dia seguinte, podem removê-la e entregá-la a outra pessoa. Os jovens estão a lutar para conseguir emprego nesta aldeia. Alguns acabam a roubar por causa da falta de empregos, outros fazem caça ilegal de rinocerontes. Alguns voltam, alguns morrem e alguns são presos.” Dado que muitos moradores locais poderiam ganhar mais dinheiro vendendo um único chifre de rinoceronte do que ganhariam num ano num outro emprego, talvez não surpreenda que as redes criminosas consigam facilmente seduzir os moradores locais para a caça furtiva.

Capacitar as comunidades

Entender a razão pela qual as pessoas participam na caça furtiva e investir em estratégias orientadas para a comunidade de modo a combatê-la, é o cerne da pesquisa mais recente de Annettew1. Desde que terminou o seu doutoramento, Annette trabalha como cientista sénior e pós-doutoranda na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, sendo também membro sénior da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional. “Eu tenho trabalhado num projeto que analisa o porquê das pessoas se dedicarem à caça furtiva. Neste momento, as estruturas de incentivo são contra os rinocerontes – para as pessoas que vivem perto de parques e reservas nacionais, os rinocerontes valem mais mortos do que vivos”, explica Annette. “Estamos a tentar mudar essa estrutura de incentivos para parar o comércio ilegal de vida selvagem”.

A mother and calf killed for their horns in Gauteng, South Africa
Uma mãe e uma cria mortos devido aos seus chifres em Gauteng, na África do Sul
Hein waschefort/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
 

Annette considera que as comunidades locais são as partes mais importantes no debate sobre a economia da vida selvagem, mas diz que elas são frequentemente ignoradas. “Eles vivem não só nos limites dos parques, mas também nos limites da sociedade”, diz. A população local nas áreas rurais é frequentemente excluída dos serviços públicos, por exemplo. Como resultado, os chefes e os caçadores furtivos às vezes assumem funções similares às do Estado, construindo estradas, lojas e poços de água, ou melhorando a educação básica e a saúde – tudo pago com dinheiro dos chifres dos rinocerontes escalfados. Se às comunidades locais fossem concedidos direitos de posse sobre a terra, e se beneficiassem da conservação dos rinocerontes, poderiam tornar-se protetores em vez de caçadores de vida selvagem. Um país onde essa abordagem baseada na comunidade local foi bem-sucedida é a Namíbia, onde ex-caçadores ilegais e pessoas locais agora actuam como guardiões da vida selvagem, sendo agora responsáveis por administrar a terra e proteger as espécies em perigow2.

Nos últimos anos, no entanto, a maioria das operações de conservação estão focadas no aumento de medidas de segurança. Um maior número de guardas florestais, armas melhoradas, helicópteros armados e drones anti-caça furtiva estão a contribuir para essa “militarização verde”. “A abordagem de atirar para matar certamente não ajuda a forjar melhores relações comunidade-parque”, diz Annette. Ela acredita que as medidas actuais anti-caça furtiva não conseguem envolver as pessoas locais que vivem em áreas protegidas ou perto de áreas protegidas e reservas de caça. De facto, estas medidas podem piorar as coisas: muitas das pessoas locais que ela entrevistou expressaram a sua raiva em relação ao facto de se valorizar mais a vida dos animais selvagens do que a sua própria vida.

Rinocerontes de África e mais além

Apesar das numerosas medidas postas em prática para proteger os rinocerontes, o mercado ilegal permanece flutuante. Em 2017, 1028 rinocerontes foram mortos na África do Sul – uma média de quase três rinocerontes por diaw3. “Os números da população de rinocerontes caíram dramaticamente desde os primeiros dias do meu trabalho de campo”, diz Annette.

The Eastern Cape giant cycad, endemic to South Africa
A cica gigante do Cabo
Oriental, endémica da África
do Sul

Bildagentur Zoonar
GmbH/Shutterstock.com
 

E, obviamente, não são só os rinocerontes que precisam de protecção. “Existem demasiadas espécies que não têm qualquer tipo de atenção”, diz Annette. “O pangolim é o animal mais traficado no mundo, por exemplo, mas poucas pessoas sabem que existe. Depois, há as belas cicas – plantas semelhantes a palmeiras que estão mais ameaçadas do que os rinocerontes na África do Sul. ”O comércio ilegal de animais selvagens ocorre não apenas em países africanos ou asiáticos: a Europa também desempenha um papel determinante. “Existem alguns portos de entrada europeus através dos quais o contrabando de vida selvagem é traficado. Há também muitos consumidores europeus de produtos de vida selvagem – especialmente quando se trata de pássaros e lagartos exóticos – e, é claro, os europeus estão envolvidos na caça de troféus”, diz Annette. “Recentemente, também houve muitos roubos na Europa, onde diversos chifres de rinoceronte e marfim foram roubados de museus ou de coleções privadas.”

A caça furtiva de rinocerontes é um tema extremamente complexo, e Annette assinala que não existe uma receita mágica para parar este crime que impinge sobre a vida selvagem. No entanto, está convencida de que a chave para a conservação dos rinocerontes será através do trabalho com as comunidades locais. “Apesar de estarmos a trabalhar para salvar os rinocerontes, só o podemos fazer se considerarmos as pessoas que vivem perto deles”, conclui.

Download

Download this article as a PDF

Web References

  • w1 – Ler o ultimo trabalho de perquisa de Annette Hübschle sobre o tráfico de vida selvagem, publicado em Agosto de 2018 em Global Initiative website.
  • w2 – Ver John Kasaona a partilhar o relato sobre os guardiões de vida selvagem na Namíbia durante a sua TED talk ‘Como caçadores furtivos tornaram-se cuidadores’.
  • w3 – A organização Save the Rhino disponibiliza estatísticas recentes sobre caça furtiva no seu website.

Resources

Author(s)

Hannah Voak é uma editor da Science in School. Com uma licenciatura em biologia e com um entusiasmo por comunicação da ciência, mudou-se em 2016 para a Alemanha para se juntar à Science in School no European Molecular Biology Laboratory.




License

CC-BY