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Apenas o efeito placebo?Submitted by minh on 22 February 2012
Traduzido por Maria João Fonseca
O efeito placebo é frequentemente considerado um fenómeno não fisiológico, mas sim psicológico – os pacientes apenas pensam que estão melhores. Mas, tal como demonstrado por ensaios clínicos, é bem mais do que isso. Por exemplo, num ensaio Sueco envolvendo pacientes cardíacos, foi colocado um pacemaker nos pacientes do grupo controlo placebo idêntico aos do grupo experimental, mas o aparelho foi desligado sem que lhes fosse dado conhecimento. Surpreendentemente, após três meses os sintomas dos pacientes em ambos os grupos sofreram melhorias. Ainda mais inesperadamente, os médicos conseguiram medir a melhoria nos pacientes do grupo controlo placebo como um aumento no fluxo sanguíneo a partir do coração (Linde et al., 1999). Mas o contexto psicossocial também pode determinar a força e o tipo de efeito placebo. Por exemplo, o número, a cor e até mesmo a embalagem dos comprimidos podem influenciar os seus efeitos (para detalhes acerca da investigação subjacente a estas observações, ver a informação de apoio onlinew1). Num estudo realizado nos EUA no qual foi dado um comprimido de açúcar inerte a metade dos participantes, tendo a outra metade recebido acupunctura simulada (as agulhas não perfuravam mesmo a pele), verificou-se que a acupunctura simulada era significativamente mais eficaz a aliviar a dor do que o comprimido de açúcar, enquanto este ajudava os pacientes a dormir (Kaptchuk, 2006). Mas então como é que o contexto psicossocial provoca modificações neurobiológicas no cérebro? Quando um paciente antecipa um tratamento terapêutico, são libertados neurotransmissores. Estes ligam-se aos receptores correspondentes, estimulando a libertação de outras moléculas ao nível do cérebro e de outros órgãos, nomeadamente hormonas, mediadores imunitários e outros neurotransmissores, as quais provocam mudanças fisiológicas de longo alcance que podem gerar um efeito terapêutico. O trabalho de Benedetti acerca da dor e de desordens relacionadas com a função motora demonstra que as modificações neurobiológicas podem assumir muitas formas: “Se se espera uma diminuição da dor, libertam-se opióides endógenos. Se se espera uma melhoria motora, é libertado um neurotransmissor completamente diferente, a dopamina” (Figura 2). ![]() Figura 2: Quando pacientes com doença de Parkinson, cujos cérebros possuem níveis baixos de dopamina, recebem a informação de que a sua função motora vai melhorar, libertam quantidades substanciais de dopamina numa região do cérebro denominada de striatum dorsal (de la Fuente-Fernández & Stoessl, 2002). A figura mostra resultados de exames PET (tomografia de emissão de positrões) realizados ao cérebro de um paciente com Parkinson, que demonstram a quantidade de raclopride marcado radioactivamente – um composto que compete com a dopamina pelos receptores dopaminérgicos – antes (esquerda) e depois (direita) da administração de um placebo. A cor vermelha menos intensa (direita) indica um aumento do nível de dopamina, que impede a ligação do raclopride Reimpresso de de la Fuente-Fernández R, Stoessl AJ. (2002) The placebo effect in Parkinson’s disease. Trends in Neuroscience 25(6): 302-306. doi: 10.1016/S0166-2236(02)02181-1. Copyright 2002, com permissão de Elsevier “Mas a questão crucial”, explica Benedetti, “é como aquilo que o cérebro espera pode desencadear uma libertação específica de neurotransmissores.” Actualmente admite que não dispomos de uma resposta definitiva a esta questão, mas existem dois mecanismos que têm sido particularmente bem estudados (Figura 3): ![]() Figura 3: O efeito placebo: do contexto psicossocial à resposta terapêutica. O contexto psicossocial diz ao cérebro do paciente para esperar um efeito terapêutico. Desta forma, ocorrem eventos neurobiológicos no cérebro, através de mecanismos inconscientes e/ou conscientes, que culminam na libertação de moléculas efectoras. Estas provocam alterações fisiológicas no cérebro e noutros órgãos que podem gerar um efeito terapêutico Imagem cortesia de Nicola Graf
![]() Figura 4: Esquema de uma perspectiva lateral do cérebro, mostrando as regiões envolvidas na resposta condicionada (córtex pré-frontal dorso-lateral) e a resposta de recompense e de ansiedade (núcleo accumbens e córtex orbitofrontal, respectivamente) durante o efeito placebo Imagem cortesia de Nicola Graf Ambas as redes de ansiedade e de recompensa controlam muitas vias bioquímicas e órgãos associados. No estudo do pacemaker desligado, pensa-se que a condição cardíaca dos pacientes do grupo placebo melhorou porque eles estavam menos ansiosos e produziram níveis mais baixos de hormonas catecolaminas relacionadas com a resposta ao stress, que se sabe terem a capacidade de alterar a função cardíaca.
Isto é revolucionário: a ideia de que a eficácia dos medicamentos pode ser afectada tão profundamente pelo contexto em que são administradas. Para a profissão médica, o desafio será assegurar a utilização mais eficaz e ética do efeito placebo. Caixa (actividade para sala de aula): Tópicos para discussão
Agradecimentos Este artigo é baseado numa entrevista e palestraw2 realizadas no European Molecular Biology Laboratory (EMBL), em Heidelberg, Alemanha, por Fabrizio Benedetti, professor de fisiologia e neurociências na University of Turin Medical School e no National Institute of Neuroscience em Itália. Colloca L, Benedetti F (2005) Placebos and painkillers: is mind as real as matter? Nature Reviews Neuroscience 6: 545-552. doi: 10.1038/nrn1705 de la Fuente-Fernández R, Stoessl AJ (2002) The placebo effect in Parkinson’s disease. Trends in Neurosciences 25(6): 302-306. doi: 10.1016/S0166-2236(02)02181-1 Hayes E (2010) The science of humour: Allan Reiss. Science in School 17: 8-10. www.scienceinschool.org/2010/issue17/allanreiss Kaptchuk T (2006) Sham device versus inert pill: randomised controlled trial of two placebo treatments. British Medical Journal 332: 391-394. doi: 10.1136/bmj.38726.603310.55 Linde C et al. (1999) Placebo effect of pacemaker implantation in obstructive hypertrophic cardiomyopathy. PIC study group. Pacing in cardiomyopathy. American Journal of Cardiology 15: 903-907. doi: 10.1016/S0002-9149(98)01065-0 Referências da Internet w1 – Informação de apoio com detalhes de estudos sobre o efeito placebo está disponível para ser descarregada em formato Word ou PDF. w2 –Um vídeo da palestra de Fabrizio Benedetti está disponível no website da EMBL (www.embl.de) ) ou através do link directo: http://tinyurl.com/3tc4tf5 Recursos Para um programa de rádio em duas partes pelo doutorado e escritor de ciência Ben Goldacre acerca do efeito placebo e das suas implicações para a medicina tradicional, consultar: www.bbc.co.uk/radio4/science/placebo.shtml
Para uma revisão do livro de Ben Goldacre Bad Science, que inclui um capítulo fascinante sobre o efeito placebo, consultar:
Para um artigo brilhante acerca do caos causado pelo efeito placebo na indústria farmacêutica, consultar:
Se gostou deste artigo, porque não pesquisar a colecção completa de artigos sobre tópicos no âmbito da medicina publicados na Science in School? Consultar: www.scienceinschool.org/medicine Andrew Brown graduou-se recentemente pela University of Bath, UK, com um grau em biologia molecular e celular. Durante o seu curso, tirou um ano para trabalhar na empresa agroquímica Syngenta onde se especializou em microscopia óptica e electrónica. Trabalha agora como estagiário na Science in School, sediado no European Molecular Biology Laboratory, em Heidelberg, Alemanha. Opinião Apesar de a palavra ‘placebo’ ser provavelmente familiar à maioria das pessoas, o mais certo é que muitas não saibam realmente o que significa. O autor ajuda o leitor a compreender o que é e o que faz o efeito placebo, incluindo as complexas formas através das quais ajuda o paciente a melhorar. Este artigo será muito útil para o estudo do sistema nervoso ao nível de biologia do ensino secundário. As actividades de sala de aula sugeridas serão particularmente úteis para os professores. As questões disponibilizadas serão adequadas para alunos de biologia, em sessões de discussão em grupo-turma, projectos em grupos pequenos, ou até mesmo exercícios individuais de trabalho de casa. Uma vez que o conteúdo do artigo não é exclusivamente científico, mas também aborda assuntos éticos, pode constituir um excelente material de discussão para aulas de psicologia e de ciências sociais. Michalis Hadjimarcou, Chipre
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