|
Categories:
Topics:
Tools
Proteínas letais: priõesSubmitted by celius on 18 October 2010
Traduzido por Artur Melo
A doença é a variante da doença de Creutzfeld-Jacob (vCJD), uma num grupo de doenças conhecidas como encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSEs), as quais são provocadas e transmitidas através de formas anormais de proteínas priónicas. Exemplos de TSEs incluem não apenas a vCJD, mas também ‘scrapie’ (paraplexia enzoótica) em ovinos, a encefalopatia espongiforme bovina (BSE ou doença das vacas loucas) em gado bovino e kuruw1 em humanos. Estas doenças criam espaços de grandes dimensões, preenchidos por líquido, no tecido cerebral porque a acumulação de priões anormais provoca a morte dos neurónios (células nervosas). Estes espaços característicos atribuem às doenças os seus nomes: encefalopatias (doenças cerebrais) espongiformes (com aspecto de esponja). As TSEs afectam o sistema nervoso central, com sintomas que incluem problemas com a coordenação e o equilíbrio, tremores e movimentos espasmódicos incontroláveis. Nos humanos, as TSEs também provocam alteração de personalidade e depressão, e os doentes podem sentir confusão, problemas de memória e insónia. À medida que as doenças progridem, a maioria das funções mentais desaparecem, incluindo a capacidade de falar. Todas as TSEs são fatais e, por enquanto, não há cura.
Os priões são o único caso conhecido de proteínas patogénicas (que provocam doenças) que se auto-propagam, e são capazes de provocar doenças graves, apesar de parecerem ser simples moléculas proteicas: ao contrário das bactérias, vírus e os outros agentes patogénicos conhecidos, não têm nenhuma informação codificada em ácidos nucleicos (ADN ou ARN) sobre como invadir e replicar-se dentro do hospedeiro. Existe ainda um véu de mistério em torno dos priões, de como se replicam exactamente e atravessam a barreira hemato-encefálica e a barreira da espécie – ou seja, infectam diferentes espécies de hospedeiros. Foi na década de 1960 que os investigadores descobriram pela primeira vez que os agentes causadores das TSE pareciam não ter ácidos nucleicos; Tikvah Alper sugeriu que o agente era uma proteína. Esta ideia pareceu herética porque todos os outros agentes causadores de doença continham ácidos nucleicos e a sua virulência e patogénese era determinada geneticamente.
Porque temem alguns cientistas uma epidemia de vCJD? A estirpe de prião mais preocupante é a que provoca a vCJD – uma forma de doença das vacas loucas que atravessou a barreira das espécies para infectar humanos (ver caixa). O primeiro caso de vCJD apareceu no Reino Unido em 1996 onde, desde então, vitimou 168 pessoas, com um pico em 2000 quando morreram 28 pessoasw3, e houve um pequeno número de casos noutros países, incluindo a França, Itália, Irlanda, Canadá e os EUA. Números exactos de pessoas infectadas ou que morrem desta doença a nível mundial não são conhecidos e apesar de não haver a certeza de como as pessoas são infectadas, pensa-se que a principal via de infecção é através da ingestão de carne infectada.
Número de casos de vCJD (sobreviventes) A maioria das outras doenças causadas por priões, incluindo a CJD ‘normal’, são genéticas ou com motivos desconhecidos, e afectam as pessoas idosas. As variantes da CJD diferem da CJD porque afectam jovens e os priões aberrantes se encontram não apenas no cérebro mas também em tecidos como o sangue, amígdalas e apêndices; este facto permite novos modos de transmissão à população em geral e não apenas aos idosos.
Parece, por isso, que podemos contrair vCJD através de várias vias, apesar do risco ser provavelmente baixo. Mas estará cada um de nós sujeito ao mesmo risco? Vários estudos mostraram que a vCJD apenas afecta pessoas que possuem certas variantes (alelos) de um determinado gene (prnp); as outras pessoas parecem ser resistentes ou não apresentam os sintomas tão rapidamentew4. Torna-se preocupante cerca de 40% da população de europeus ocidentais e norte americanos e 92% da população japonesa ser homozigótica para estes alelos susceptíveis. Além disso, a investigação sobre o kuru sugere que mesmo os indivíduos sem a susceptibilidade alélica podem ficar infectados, demorando apenas mais tempo a manifestar os sintomas. Por isso, talvez sejamos todos susceptíveis à infecção priónica. Devido a todas estas possíveis vias de transmissão e às incertezas relativamente à sua importância, os resultados dos estudos que prevêm o número de mortes provocadas por vCJD no Reino Unido, vá de várias centenas a mais de dez milhões de pessoas. Mesmo que agora pareça que a epidemia de vCJD esteja a diminuir, isso pode dever-se apenas a que muitas pessoas infectadas ainda estejam a desenvolver sintomas. Ninguém tem a certeza. Investigação em curso permitirá elucidar qual o risco das doenças priónicas para a saúde pública. BSE (doença das vacas loucas) A BSE despertou a atenção dos cientistas em 1986, quando os primeiros casos de uma nova doença neurológica no gado foram descobertos no Reino Unido. A causa foi atribuída ao uso de derivados de carne na alimentação do gado. Na epidemia de BSE que se sucedeu, 181 376 casos de BSE foram registados no RU até Novembro de 2002, e milhões de animais foram abatidos para travar a epidemia. Os primeiros casos fora do RU apareceram em 1989 e, desde então, têm ocorrido vários milhares de casos noutros países, incluindo a maior parte dos países europeus, os EUA, Canadá, Japão e Israel. No entanto, a alimentação de gado com derivados de origem animal foi proibida no RU em 1988 e estão a ser usados procedimentos de fiscalização rigorosa no acompanhamento da BSE. Os casos de BSE tiveram um pico no RU em 1992 (37 280 casos) e diminuíram drasticamente desde então (12 casos em 2009). O número de casos noutros países tiveram um pico alguns anos depois (2001-03) mas também diminuiu drasticamente desde entãow5. Referências Franscini N et al. (2006) Prion protein in milk. PLoS ONE 1: e71. doi: 10.1371/journal.pone.0000071 Gatti JL et al. (2002) Prion protein is secreted in soluble forms in the epididymal fluid and proteolytically processed and transported in seminal plasma. Biology of Reproduction 67: 393-400. doi: 10.1095/biolreprod67.2.393 Ligios C et al. (2005) PrPSc in mammary glands of sheep affected by scrapie and mastitis Nature Medicine 11: 1137–1138. doi: 10.1038/nm1105-1137 Mortimer D, Barratt CLR (2006) Is there a real risk of transmitting variant Creutzfeldt–Jakob disease by donor sperm insemination? Reproductive BioMedicine Online 13: 778–790 Si K et al. (2010) Aplysia CPEB can form prion-like multimers in sensory neurons that contribute to long-term facilitation. Cell 140: 421-435. doi: 10.1016/j.cell.2010.01.008 Wang F et al. (2010) Generating a prion with bacterially expressed recombinant prion protein. Science 327: 1132-1135. doi: 10.1126/science.1183748 Referências da Internet w1 – Informações sobre o kuru estão disponíveis no website do ‘US National Institute of Neurological Disorders and Stroke’: www.ninds.nih.gov/disorders/kuru Em 1976, Carleton Gajdusek recebeu o Prémio Nobel da Medicina pelo seu trabalho sobre o kuru. Mais informações estão disponíveis no comunicado de imprensa, na sua autobiografia, no discurso de Prémio Nobel e outros materiais no website do Prémio Nobel. Ver: http://nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1976 w2 – Para saber mais sobre o trabalho de Stanley Prusiner’s, ver o comunicado de imprensa, a sua autobiografia e outros materiais no website dos Prémios Nobel: http://nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1997 w3 – Estatísticas dos casos registados de BSE e mortes provocadas por vCJD estão disponíveis no website do ‘European Centre for Disease Prevention and Control’: (www.ecdc.europa.eu) ou através do link directo: http://tinyurl.com/yjbx8tn w4 – Para saber mais sobre a predisposição genética para adquirir doenças priónicas, ver o website da unidade de priões do ‘Medical Research Council’ do Reino Unido (www.prion.ucl.ac.uk) ou use o link directo: http://tinyurl.com/yaqau4a w5 – Estatísticas sobre BSE e muitas outras doenças animais estão disponíveis no website da ‘World Organisation for Animal Health’: www.oie.int Recursos Mais informação sobre priões está disponível nos websites dos ‘US Centers for Disease Control and Prevention’: www.cdc.gov/ncidod/dvrd/prions Para saber mais sobre BSE, ver o website da ‘World Health Organization’: www.who.int/zoonoses/diseases/bse/en Trabalhos de pesquisa que podem ter interesse incluem:
Os postulados de Koch foram publicados nos finais do século XIX por Robert Koch. Para uma análise mais actual dos postulados e da sua validade, ver:
Para consultar todos os artigos de biologia na Science in School, ver: www.scienceinschool.org/biology Opinião Muitas pessoas ouviram falar da vCJD, ou doença das vacas loucas, mas pouco sabem sobre o agente causador e da doença propriamente dita. Este artigo explica a doença e cita investigação actual sobre o agente que a causa, um prião. Será útil para o tópico de doenças infecciosas incluído em muitos curricula de ciência e para cultura geral noutros assuntos. Os links para dados sobre BSE poderiam ser usados em aulas de matemática ou para aprender a construir gráficos a partir dos dados. O artigo presta-se a debates sobre segurança alimentar, o efeito do surto da doença entre os produtores de carne britânicos, assim como trabalhos de compreensão e aplicação. Algumas ideias para questões de compreensão incluem:
Ideias para questões de aplicação são:
Shelley Goodman, Reino Unido
|