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Há alguém lá fora? Uma arca de VidaSubmitted by rau on 30 March 2009
Traduzido por Filomena Freitas Quando um cometa ou asteróide atinge um planeta, podem ser quebrados fragmentos rochosos que são catapultados para o Espaço – como o meteorito de Allan Hills – e, por vezes, aterrarem em outros planetas sob a forma de meteoritos (ver glossário). Isto tem causado muita especulação. Poderão as primeiras formas de Vida ter surgido não na Terra, mas em Marte, ou talvez num outro planeta distante? Nesse caso, poderiam os meteoritos ter transportado a Vida para a Terra? Em 2007, três outros estudantes de Pós-Graduação – Ralf Moeller, Thomas Berger e Jean-Pierre de Vera – e eu decidimos investigar esta ideia, conhecido como a teoria da Litopanspermia (ver imagem acima), em três etapas:
A teoria da Litopanspermia – sólida como uma rocha? A teoria da Litopanspermia (do Grego: lithos = rocha, pan = todo, sperma = semente) foi proposta em 1903 pelo cientista Sueco Svante Arrhenius. Apesar da ideia não ter sido aceite universalmente, há algumas evidências que a suportam:
Glossário Asteróide: Um dos numerosos pequenos corpos rochosos que orbitam em torno do Sol. A maioria dos asteróides encontra-se na cintura de asteróides entre Marte e Júpiter, mas alguns têm órbitas que cruzam a órbita da Terra e podem atingir a sua superfície. Cometa: Um dos corpos gelados primitivos originários de domínios exteriores ao Sistema Solar, que têm órbitas elípticas em torno do Sol. Perto do Sol, o material gelado vaporiza e é projectado para fora do cometa, formando uma cauda brilhante. Meteorito: Rocha extraterrestre que caiu na Terra. A maioria dos meteoritos são pedaços de asteróides e são constituídos por rocha, rocha e ferro, ou ferro. Meteoróide: Pequeno corpo sólido que se move através do espaço interplanetário. Depois de cair na Terra, é denominado de meteorito. 1. A viagem começa Como parte das nossas teses de Mestrado e Doutoramento, investigámos a primeira etapa: a fase de ejecção, na qual o material vivo é lançado no Espaço pelo impacto de um meteorito (Horneck et al, 2008; Stöffler et al, 2007). Para simular o acontecimento, utilizámos duas placas de rocha semelhantes às rochas que se pensa existir em Marte, colámos uma camada de microrganismos entre elas, colámos esta ‘sandwich’ num cilindro de ferro e rebentámo-la com TNT. Tínhamos boas razões para usar microrganismos nesta experiência. Na Terra, os micróbios seriam os organismos mais prováveis de suportar a experiência, já que são conhecidos por sobreviverem em ambientes extremamente hostis. Por outro lado, sendo organismos simples, talvez fossem semelhantes às formas de Vida primitiva em Marte. Os microrganismos escolhidos para a experiência foram esporos de bactérias, cianobactérias e líquenes que vivem dentro ou na superfície das rochas, e que são capazes de sobreviver às condições simuladas do Espaço.
Em várias experiências, nas explosões de TNT, os microrganismos foram expostos a pressões entre 50 000 e 500 000 bar. Estes valores são semelhantes às pressões causadas pelo impacto de um meteorito em Marte, que originariam crateras com mais de 75 km de diâmetro e seriam capazes de lançar rochas marcianas para o Espaço. A compressão da explosão também sujeitou os microrganismos a temperaturas até 1000ºC. Apesar de se esperar que estas condições destruíssem toda a Vida, a 400 000 bar (400 000 vezes a pressão atmosférica normal), 0.02% dos microrganismos sobreviveram. Actualmente, a temperatura em Marte varia entre -143ºC, nos Pólos, e +27ºC, no Equador. Apesar de antigamente Marte ter sido mais quente, deve ter arrefecido mais rapidamente do que a Terra por ter perdido a sua atmosfera. Isto significa que, na altura da suposta transferência de Vida de Marte para a Terra (há cerca de 20 milhões de anos), Marte já deveria ter atingido as baixas temperaturas que lá existem actualmente. Por esta razão, numa segunda experiência, de modo a melhor reproduzir as condições em Marte, usámos gelo seco (dióxido de carbono sólido) para arrefecer o sistema a -80ºC antes de o sujeitar à explosão, e descobrimos que alguns microrganismos sobreviveram, mesmo a 500 000 bar. Na experiência anterior, não arrefecida, nenhum microrganismo havia sobrevivido a essa pressão. Durante as experiências, os microrganismos foram expostos a temperaturas e pressões elevadas durante apenas uns segundos, tal como teria acontecido durante o impacto real de um meteorito em Marte. Esta pode ter sido a chave para a sua sobrevivência. Então, a primeira parte da Teoria da Litopanspermia parece ser plausível: organismos em rochas podiam sobreviver a um lançamento no Espaço. 2. Viagem no Espaço: o concurso SUCCESS da ESA para estudantes Em seguida, decidimos competir pela oportunidade de investigar a segunda etapa da Teoria da Litospanspermia: poderiam organismos vivos sobreviver às condições de frio extremo, radiação cósmica e vácuo de uma longa viagem espacial? No concursow1, SUCCESS para estudantes, organizado pela Agência Espacial Europeia (ESA), foi-nos dada a oportunidade de realizar uma experiência a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), em Novembro de 2009. Desde os anos 80, várias experiências demonstraram que os microrganismos são capazes de sobreviver no Espaço (e.g. Mileikowsky et al, 2000). No entanto, nesses testes, os microrganismos estavam protegidos da radiação por alumínio, ou então passaram apenas poucos dias no Espaço. Então, quanto tempo poderiam eles sobreviver no Espaço? Nós pretendemos usar a ISS para realizar uma investigação mais realista do efeito das condições espaciais em organismos vivos.
Para além de fornecer provas que possam apoiar a Teoria da Litopanspermia, estes resultados podem fornecer informação sobre o efeito da meteorização do espaço sobre as propriedades ópticas das rochas. Estas propriedades são importantes para a observação de asteróides, já que a espectroscopia óptica é usada para determinar a sua composição elementar. Um maior conhecimento da meteorização espacial, poderá, deste modo, ajudar os cientistas a determinar se os meteoritos encontrados na Terra e os asteróides no Espaço provêm de um mesmo corpo original. 3. Uma nova experiência? Uma aterragem suave Mesmo que as primeiras duas partes da Teoria da Litopanspermia sejam plausíveis – os microrganismos podem sobreviver a uma viagem prolongada no Espaço após terem sido arrancados do seu planeta – será que conseguem sobreviver noutro planeta? Os Astrobiólogos do Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt são da opinião que os microrganismos terrestres são capazes de sobreviver durante algum tempo em Martew2. Isto sugere que as formas de vida Marcianas também poderiam sobreviver na Terra, assumindo que suportavam o impacto. Actualmente, possuímos um conhecimento reduzido sobre o que sucederia se um meteorito transportando organismos vivos aterrasse na Terra. No entanto, possuímos informação que nos permite especular. Ao entrarem na atmosfera da Terra a elevada velocidade, a superfície dos objectos é exposta a temperaturas muito elevadas, devido à fricção. No entanto, apesar das temperaturas nas camadas exteriores do meteorito serem suficientemente elevadas para derreter – ou até mesmo, vaporizar – a rocha, o interior do meteorito mantém-se com temperaturas próximas dos -273ºC (0 K) verificadas no Espaço.
As provas da Litopanspermia? Mesmo que os microrganismos tenham conseguido sobreviver às três etapas descritas na Teoria da Litopanspermia, isso não comprovaria que a vida na Terra tenha tido origem extraterrestre. Acima de tudo, não sabemos realmente se existe vida fora do nosso planeta – mas a procura de vida extraterrestre continua, também. O concurso SUCCESS da ESA SUCCESS, Space station Utilization Contests Calls for European Student initiativeS, é um concurso organizado pela ESAw1, com o objectivo de tornar os estudantes de hoje em os utilizadores da Estação Espacial Internacional (ISS) de amanhã. Estudantes universitários europeus, até ao grau de Mestrado ou equivalente, de qualquer disciplina, são convidados a propor uma experiência a ser realizada a bordo da ISS. O primeiro prémio é uma bolsa de um ano no centro de tecnologia e investigação espacial da ESA, na Holanda. O vencedor irá trabalhar na sua experiência, de modo a que ela possa ser enviada para a ISS. O concurso está actualmente encerrado a novos participantes. O próximo Concurso SUCCESS está previsto para 2010. Quando o grupo iniciou as suas experiências, Cornelia Meyers era aluna de Mestrado em Mineralogia, no Museu de História Naturalw3em Berlim, Alemanha. Ralf Moeller (Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt, DLR – o Centro Aeroespacial Alemão) e Jean-Pierre de Vera (Universidade de Düsseldorf, Alemanha) eram alunos de Doutoramento em Biologia. Thomas Berger era aluno de Doutoramento em Física na DLR. Cornelia é agora aluna de Doutoramento, enquanto os restantes estão a realizar investigação Pos-Doutoral. ReferênciasHorneck G et al (2008) Microbial rock inhabitants survive impact and ejection from host planet: first phase of lithopanspermia experimentally tested. Astrobiology 8: 17-44 Mileikowsky C et al (2000) Natural transfer of viable microbes in space. Part 1: From Mars to Earth and Earth to Mars. Icarus 145: 391-427 Stöffler D et al (2007) Experimental evidence for the potential impact ejection of viable micro-organisms from Mars and Mars-like planets. Icarus 186: 585-588 Referências da Internet w1 – Detalhes sobre o Concurso SUCCESS da ESA podem ser encontrados em: www.esa.int/esaHS/SEMU9TGHZTD_education_0.html w2 – Para mais informações sobre Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt, ver: www.dlr.de/en w3 – Para mais informações sobre o Museu de História Natural em Berlim, Alemanha, ver: www.naturkundemuseum-berlin.de/index_english.html Fontes Rede de Cursos em Astrobiologia: http://streamiss.spaceflight.esa.int/?pg=production&PID=alcn Para mais informação sobre Panspermia, ver:
Hartevelt S, Walker C (2008) The International Space Station: a foothold in space. Science in School 9: 62-65. www.scienceinschool.org/2008/issue9/iss Marinova M (2008) Vida em Marte: terraformando o Planeta Vermelho. Science in School 8: 21-24. www.scienceinschool.org/2008/issue8/terraforming/portuguese Wegener A-L (2008) Laboratory in space: interview with Bernardo Patti. Science in School 8: 8-12. www.scienceinschool.org/2008/issue8/bernardopatti Warmbein B (2007) Down to Earth: interview with Thomas Reiter. Science in School 5: 19-23. www.scienceinschool.org/2007/issue5/thomasreiter Warmbein B (2006) Launching a dream: the first European student satellite in orbit. Science in School 1: 49-51. www.scienceinschool.org/2006/issue1/sseti
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