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Home » Issue 6 » Olhos no horizonte, pés assentes na terra: entrevista com Tim Hunt

Olhos no horizonte, pés assentes na terra: entrevista com Tim Hunt

Traduzido por Alexandra Manaia

Tim Hunt
Tim Hunt
Imagem cortesia de Ed Swinden

O Professor Tim Hunt, que recebeu o prémio Nobel da Fisiologia e da Medicina em 2001, fala com Philipp Gebhardt sobre a sua paixão pela ciência, a importância da investigação fundamental, a influência de colegas entusiastas e o papel da serendipidade nas descobertas científicas.

Em 2001, Tim Hunt recebeu o prémio Nobel da Fisiologia e da Medicina juntamente com Leland Hartwell e Paul Nurse 'pela descoberta de moléculas que desempenham um papel crucial na regulação do ciclo celular'w1.

Os organismos multicelulares desenvolvem-se a partir de um ovo fertilizado que sofre muitas divisões celulares. Durante a vida dum organismo as células individuais morrem e são substituídas através do processo de divisão celular. Mas até que uma célula eucariota se possa dividir em duas células filhas, há vários passos que têm de ocorrer.

Esta sucessão de passos - incluindo a replicação do genoma, o crescimento celular  e a segregação dos cromossomas é conhecida  por ciclo celular (ver imagens).

A live mammalian (kangaroo rat) cell going through the different stages of the M-phase in the cell cycle. From left to right: prophase, prometaphase, metaphase, anaphase, telophase. DNA (blue) and microtubules (yellow) are labelled with fluorescent proteins or vital dyes respectively
Uma célula viva de mamífero (rato canguru) a passar pelas sucessivas etapas da fase M do ciclo celular. Da esquerda para a direita: profase, prometafase, metafase, anafase, telofase. O ADN (azul) e os microtúbulos (amarelo) estão marcados com proteínas fluorescentes e corantes vitais, respectivamente
Imagem cortesia de Jan Ellenberg

Todos os passos do ciclo celular devem ser rigorosamente controlados para evitar danos e subsequentes anomalias, tais como a formação de tumores. O controlo faz-se em “checkpoints do ciclo celular”, pontos do ciclo em que determinados mecanismos celulares podem intervir, caso alguma coisa esteja a correr mal. Tim Hunt descobriu que a passagem pelos “checkpoints”  do ciclo celular requer ciclinas, proteínas recentemente descobertas que são sintetizadas antes de cada “checkpoint”, e que são destruídas imediatamente após a passagem pelo “checkpoint”. Por sua vez, as ciclinas activam outras proteínas, as cinases, que possibilitam a passagem das células à próxima fase do ciclo. O seu trabalho teve implicações importantes na compreensão da formação dos tumores. Actualmente trabalha na instituição científica “Cancer Research UKw2”, no Reino Unido.

Fixed mammalian (rat) cells in different stages of the M-phase in the cell cycle. From left to right: interphase, prophase, metaphase, anaphase, cytokinesis. DNA (blue) and microtubules (green) and actin filaments (red) are labelled by fluorescently labeled antibodies or dyes respectively
Células de mamífero (rato) “fixadas”em diferentes etapas da fase M do ciclo celular. Da esquerda para a direita: interfase, profase, metafase, anafase, citocinese. ADN (azul) e microtúbulos (verde) e filamentos de actina (vermelho). Estas estruturas foram marcadas com anticorpos, por sua vez marcados ou com corantes
Imagem cortesia de Jan Ellenberg

O que o levou a querer estudar biologia?

Penso que esta decisão foi muito influenciada pela escola que frequentei. Decidi ser biólogo depois de me ter saído particularmente bem num exame de Biologia que fiz quando tinha onze anos. O nosso professor de Ciências era óptimo e eu estava sempre ansioso por ter aulas de Ciências; eram muito mais interessantes do que as aulas de Latim e de Grego que tínhamos. Eu não era muito bom em Física, mas a Biologia não requeria esforço nenhum. Eu também tive um muito bom professor de Química mais tarde, por isso, ir estudar Bioquímica na Universidade isto nos anos 50- foi muito natural. Nunca tive de fazer escolhas difíceis; segui apenas o gostava e achava fascinante.

Foi para mim um choque quando entrei para a Universidade, pois dei-me conta que havia pessoas que sabiam muito mais do que eu, que compreendiam melhor e que eram muito mais espertas do que eu. [Risos] Depois percebi que afinal também me conseguia “aguentar”, e mais uma vez saí-me bem nos exames. Pude escolher as disciplinas que queria: explorei um pouco a Psicologia, por exemplo. Achei interessante mas não era bom nisso. Para mim o maior objectivo da educação é ajudar-nos a descobrir aquilo em que somos bons. Assim, o esforço deixa de ser sentido como um trabalho - fazêmo - lo simplesmente porque gostamos.

Todos os jovens cientistas aprendem que planear bem as experiências é crucial para que os projectos de investigação sejam bem sucedidos, mas mais tarde ou mais cedo também descobrimos que qualquer experiência precisa também de ser correctamente interpretada. Muitas vezes os resultados são totalmente inesperados e é aí que o trabalho começa a sério…e muitas vezes a serendipidade também joga um papel importante. Que papel é que a serendipidade desempenhou na sua carreira científica?

Oh, um papel muito importante… e por variadíssimas vezes. A primeira descoberta importante que fiz quando era um estudante na Universidade deu-se quando eu e alguns colegas estávamos a tentar perceber se os ribossomas estavam uniformemente distribuídos no ARN mensageiro. Isto implicava fazer experiências muito longas usando gradientes de sacarose. Uma vez saímos para almoçar enquanto a experiência estava a correr e demorámo-nos demais.  Preguiçosos, decidimos mesmo assim, analisar os resultados. Em resultado da nossa preguiça descobrimos algo que dificilmente teríamos descoberto de outra forma! Descobrimos que existiam menos ribossomas no ARN que fazia cadeias alfa do que no que fazia cadeias beta. Estes resultados foram publicados no meu primeiro artigo na Nature! Naqueles dias não havia pressão para publicar; achámos que era um resultado interessante e enviámo-lo para publicação. Foi um resultado bastante importante, mas foi um perfeito “acidente”, uma descoberta afortunada resultando de uma experiência que durou um pouco mais do que o normal.

Devo acrescentar que nessa altura nós não interpretámos correctamente esta descoberta e fizemos outras experiências sem os controlos adequados, por isso obtivemos a resposta errada. Um bom amigo meu, Harvey Lodish, veio mais tarde corrigir-nos apresentando uma interpretação correcta dos nossos dados. Esta foi uma grande lição: a serendipidade mostra-te algo que não imaginavas, tentas perceber o que se passou através de experiências bem planeadas, interpretas mal as experiências, um colega corrige-te e dá a resposta correcta…É divertido e é um óptimo processo de aprendizagem.

De que forma deve um director de grupo promover a criatividade dos seus colaboradores?

Na verdade, não sou muito fã de líderes; prefiro uma estrutura menos rígida dos grupos de investigação. Manter o moral e o entusiasmo das pessoas é muitíssimo importante mas não tenho a certeza de ser bom nisso. Tem de se ser crítico consigo mesmo e também com as pessoas à nossa volta; muitas vezes as pessoas são muito sensíveis à crítica. A verdade é que é mesmo muito difícil fazer descobertas. E se o investigador não for extraordinariamente autocrítico, poderá ter ideias erradas mas de que gosta tanto, que não está preparado para rejeitar.

É muito mais fácil quando está a trabalhar com os seus colegas. Há uma entrevista famosa com James Watson e Francis Crick – “Por que é que eles conseguiram e os outros não”; Francis Crick disse que uma das razões foi o facto de eles poderem ser realmente francos um com o outro sem levarem isso a mal. “É uma má ideia. Foi tua ideia, mas mesmo assim é uma má ideia e tens de procurar ter uma ideia melhor”. Mas para alguns pode ser muito demolidor ter uma pessoa mais senior a dizer este tipo de coisas.

Como é que a sua carreira de investigador evoluiu?

Bom, suponho que a minha carreira evoluiu [Risos]. Os meus amigos e eu sempre tivemos financiamentos para continuar- mas também não tínhamos montes de dinheiro. Quando regressei da América para Inglaterra, o meu salário desceu cerca de 5 vezes! Possuíamos financiamentos limitados e tínhamos de preocupar-nos com ter o suficiente para comer, mas divertiamo-nos imenso com o trabalho. O ambiente era estimulante intelectualmente; estávamos a descobrir coisas e isso era mais importante do que a carreira. A liberdade de ter uma bolsa só para fazer investigação é uma autêntica bênção. Durante cerca de dez anos nunca tive mais de três anos de “tenure” de uma vez e o mesmo é verdade para muitos dos meus amigos mais bem sucedidos cientificamente. Não se tem responsabilidades, pode-se ir a qualquer sítio no mundo fazer o que se quiser. Mas tem de se descobrir qualquer coisa, senão não lhe atribuirão a próxima bolsa. Depois arranjei um emprego e foi o fim...[Risos]

Muitas vezes digo às pessoas “Estou tão contente de já não ter vinte e tal anos”. Acho que agora é muito mais difíicil do que quando eu comecei. Em particular nesta área, conhecia-se tão pouco que quase toda a pedra levantada do chão acabava por expôr qualquer coisa interessante lá por debaixo. Acho que na Biologia, a investigação agora está muito mais difícil. 

O que é que está a investigar agora?

Estou a trabalhar numa série de questões ligadas ao controlo do ciclo celular. Descobrimos que as transições entre as fases do ciclo celular são catalizadas por cinases, mas a questão agora é perceber quantas proteínas é que estas cinases têm de fosforilar e qual o grau de fosforilação necessário para que as células entrem em mitose. E o que dizer do controlo das fosfatases que consegue reverter o processo? Isto é realmente uma questão muito importante: temos batalhado com ela durante vários anos e não sei se alguma vez obteremos uma conclusão satisfatória. Outra coisa muito interessante é que a proteína que eu descobri- a ciclina- caracteriza-se por desaparecer abruptamente e ainda não comprendemos como isso acontece.

É um campo muito competitivo mas é bem divertido. Também tem sido difícil: há uma década descobrimos os mecanismos de base mas ainda não compreendemos como funcionam. Provavelmente ainda permanecerei intrigado com estes fenómenos quando me reformar-independentemente de quando isso acontecer.

Ainda parece muito entusiasmado quando fala do seu trabalho de investigação.

O entusiasmo vem e vai, tenho de admitir. Quando recebi o prémio Nobel, pensei que era talvez tempo de parar. Sabia que era muito improvável voltar a fazer uma grande descoberta como aquela, por isso por que não parar? Parar e tentar ajudar as outras pessoas.

Durante algum tempo estive por exemplo envolvido em fazer “lobbying” pelo European Research Council- de que sou um grande entusiasta. No entanto, por fim realizei que a única coisa em que sou realmente bom e a fazer experiências, e o entusiasmo por trabalhar no laboratório e descobrir coisas voltou. E é isso que estou a fazer.

[Os ovos e oocitos do sapo Africano Xenopus laevis tornaram-seuma importanteferramenta na investigação em Biologia. Estas células relativamente grandes podem ser manipuladas facilmente e usadas para estudar os mecanismos do desenvolvimento embrionário. Proporcionam um sistema controlado, ideal para estudar a expressão de proteínas manipuladas.Tim Hunt e os seus colegas usaram estes ovos de rã para analisar proteínas que desempenham um papel crucial na complexa rede de regulações do ciclo celular. Mostraram que este sistema de regulação, que tinha sido inicialmente identificado em ovos de ouriço-do-mar e em moluscos , existe também nas células de vertebrados e caracterizaram ainda outras moléculas envolvidas.]

Paul Nurse, que consigo partilhou o prémio Nobel em 2001, disse que “a Ciência de qualidade é feita por indivíduos criativos trabalhando numa comunidade científica socialmente interactiva, com muita liberdade para prosseguir as suas ideias científicas”. O público apoia porque espera qualquer coisa de volta, tal como melhorias na área da saúde ou em termos económicos. Como explicar o valor social da investigação feita em ovos de rã a um não cientista?

Não é fácil! Penso que temos de explicar que se trata de uma actividade cultural: é melhor conhecer as coisas, e há muita, mesmo muita beleza, em perceber coisas.

Além disto, os benefícios da investigação fundamental são por vezes inesperados. Em 1830, Michael Faraday estava a fazer uma demonstração sobre electricidade e uma mulher perguntou-lhe, “Qual a utilidade da descoberta da electricidade?” Faraday terá respondido “Minha senhora, qual é a utilidade de um recém nascido?” É nestes termos que vejo a minha investigação com Xenopus. Quando Faraday descobriu a electricidade, o impacto que isso traria para a sociedade era ainda bastante imprevisível.

Onde vê os pontos fortes da comunidade científica Europeia quando comparada com outras como por exemplo nos EUA?

Preocupo-me com a investigação na Europa quando a comparo com o investimento que os EUA fazem na Ciência. De alguma forma, os Americanos têm tido mais sucesso na criação e na manutenção de uma comunidade dinâmica e criativa. Isto deve-se em parte ao facto de eles terem toneladas de dinheiro- embora algumas pessoas neguem isso. Penso que eles têm uma espantosa abertura a ideias novas e há uma admiração pela investigação fundamental- não só por parte dos cientistas. Se for a qualquer universidade Americana, verá que a construção dos edifíicios foi financiada pelas pessoas ricas locais. Ora isto não acontece tanto na Europa.

As universidades Europeias estão em muito mau estado. Choca verificar que as universidades Americanas aparecem sempre entre as melhores independentemente dos critérios: 15 de entre as 20 universidades de topo no mundo são nos EUA! Seria de esperar encontrar a Universidade de Paris e a Universidade de Berlim nas universidades de topo- mas não. Penso que deviamos perguntar-nos porquê e se há alguma coisa a fazer para mudar a situação.

Na sua opinião, a União Europeia está a tomar as medidas certas para o avanço da ciência na Europa?

Estou muito optimista em que a formação do European Research Council venha a ajudar a esse avanço. Penso que no passado, houve muito ênfase em áreas com um benefício prático- como a agricultura, a medicina, a tecnologia , etc. Eu acredito fortemente que estabelecendo uma comunidade entusiástica a trabalhar em investigação fundamental, se promoverá a “produção” de indivíduos brilhantes e criativos que terão sucesso naquilo que empreenderem. Não estou a dizer que todos os cientistas devam ser puros investigadores toda a vida, ou que toda a investigação deva ser investigação fundamental- obviamente que não. Mas acho que na Europa, não se dá suficiente importância  à promoção de universidades que permitam criatividade e o “divertimento”, e que valorizem a importância do conhecimento. Estamos demasiado obcecados com as justificações utilitárias da Ciência e não com as alegrias que a esta traz para seu próprio benefíicio.

Por favor complete a seguinte frase: “ O melhor sítio para fazer ciência ….”

…é um sítio onde existam muitas outras pessoas inteligentes também a fazer investigação. Fui muito feliz em Cambridge porque lá há forte tradição de excelência na investigação. Era um bocado intimidante- claro que sabemos que não somos nenhum Newton. Por outro lado, o facto de tantas descobertas cientíificas fantásticas terem sido realizadas naquela engraçada mas também bastante aborrecida cidade foi bastante importante: a Ciência era a coisa mais interesssante que se podia fazer.

Que conselhos daria a quem está a iniciar uma carreira científica ou a quem está a considerar seguir essa direcção profissional? Que qualidades se deve ter?

Penso que acima de tudo o que é preciso é curiosidade e gostar de descobrir coisas. É preciso gostar de ficar a saber. Não se trata nem duma carreira nem dum trabalho comum.
As referências são também muito importantes. Quando comecei em Cambridge, havia lá muitos cientistas que tinham recebido o prémio Nobel e que tinham sido muito bem sucedidos na compreensão do funcionamento das células. Isso ajudou bastante porque tínhamos oportunidade de conhecer mesmo essas pessoas, por vezes íamos almoçar com elas, e percebiamos que embora fossem do melhor que há em Ciência, eram também simplesmente seres humanos. Podiam até fazer comentários estúpidos; não eram omniscientes. Deu-me esperança de que os meus modestos esforços pudessem vir a ser bem sucedidos também.

E uma última frase para completar: “ Receber o prémio Nobel mudou a minha vida de uma maneira…”

…que eu não previra. Penso que a principal diferença é que me tornei numa pessoa muito mais auto-confiante.

Referências da Internet

w1 – Informações sobre o ciclo celular, e acerca do trabalho de Tim Hunt, Leland Hartwell e Paul Nurse encontram-se no comunicado de imprensa anunciando a atribuição do prémio Nobel a estes três cientistas.

Para aprender mais acerca do ciclo celular, jogar o jogo “‘Control of the Cell Cycle’ em site do prémio Nobel.

Para mais informações sobre os prémios Nobel incluindo biografias dos galardoados com o prémio, ver aqui.

w2 – O Cancer Research UK é uma instituição líder na investigação sobre o cancro no Reino Unido.

Recursos

O ficheiro audio da entrevista completa encontra-se disponível aqui.

Crítica

O cientista galardoado com o prémio Nobel Tim Hunt, partilha experiências pessoais e reflexões sobre a Ciência, as suas aplicações, e o seu papel na sociedade moderna, o seu valor cultural e a sua beleza.
Isabella Marini, Itália

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