![]() |
|
![]() |
| Home » Issue 2 » Entomologia forense |
User login |
Entomologia forense
Submitted by sis on Tue, 2006-10-31 14:03.
Biology | Interdisciplinary | Issue 2 | Portuguese | Science topic
Traduzido por Sonia Furtado
A Entomologia forense é o estudo de insectos e outros artrópodes num contexto legal. Tem inúmeras aplicações, mas a mais frequente é na determinação do tempo mínimo desde a morte (intervalo postmortem, ou IPM, mínimo) na investigação de mortes suspeitas. Para isso, determina-se a idade dos insectos presentes num cadáver humano, o que permite uma estimativa relativamente precisa em circunstâncias em que os patologistas apenas conseguem fazer aproximações. O principal pressuposto é que o corpo não está morto há mais tempo do que o necessário para os insectos chegarem ao cadáver e se desenvolverem. Assim, a idade dos insectos mais velhos presentes no corpo determina o IPM mínimo. Dois exemplos são:
Contudo, existem muitos factores adicionais que afectam a taxa de desenvolvimento de larvas num cadáver:
Ao investigar uma morte suspeita, as principais perguntas a que um entomólogo forense tem de responder são: Que espécies de varejeira estão presentes no corpo? Os espécimes recolhidos têm de estar correctamente identificados, para que possa ser utilizadatoda a informação relevante acerca da fisiologia, comportamento e ecologia da espécie. A resposta a esta questão é dada pela taxonomia, uma das ciências naturais mais negligenciadas, mas que é a base para todas as outras. Quais os mais velhos espécimes de varejeira? Podem ainda estar a alimentar-se no corpo; podem ter deixado o cadáver para se transformar em pupa noutro local; ou podem já ter emergido como adultos, deixando para trás as cápsulas de pupário vazias. Qual a idade dos espécimes mais velhos? A estimativa da idade envolve estudos morfológicos detalhados recorrendo a um microscópio binocular, para determinar o seu estado de desenvolvimento e para o comparar com dados standard relacionando estado de desenvolvimento e idade a diferentes temperaturas (ver próxima questão). Quais eram as temperaturas-ambiente no local quando as moscas se estavam a desenvolver no cadáver? Coloca-se um registador electrónico de temperatura no local do crime durante sete a dez dias, e comparam-se as leituras com dados da estação meteorológica local para o mesmo período. Esta comparação pode ser utilizada, juntamente com os dados da estação meteorológica para o período anterior à descoberta do corpo, para estimar as temperaturas no local do crime durante esse período. Assim, determina-se a temperatura a que as larvas se desenvolveram. A entomologia forense é uma ciência relativamente nova, por isso existem ainda muitas áreas em que é necessária mais investigação. Estão actualmente a realizar-se estudos de ADN para determinar diferenças genéticas entre espécies de mosca e também entre populações da mesma espécie, o que poderá ajudar a determinar se um corpo foi movido após a primeira infestação. A extracção e análise do aparelho digestivo de larvas que tenham estado a alimentar-se de um cadáver humano poderá ajudar a verificar a existência ou não de drogas no corpo, indicando um possível suicídio ou overdose. Resíduos de pólvora no aparelho digestivo das larvas indicaria um tiroteio mesmo quando as provas físicas já não existem. É até possível que pudesse extrair-se ADN humano das larvas, demonstrando a presença de um corpo mesmo depois de ter sido removido, deixando as larvas para trás. As espécies mais comuns de varejeira encontram-se durante todo o ano, mas os efeitos do frio nos diferentes estados de vida das varejeiras têm sido pouco estudados. Um maior conhecimento desta questão seria valioso, uma vez que a baixa taxa de desenvolvimento em períodos frios permite fazer estimativas de IPM muito mais tempo depois da morte, contrariamente ao que é possível no Verão. Mais investigação contribuiria para melhorar a acuidade e robustez das reconstruções de casos baseadas na entomologia forense.
Entrevista com um entomólogo forense Depois de uma Licenciatura em zoologia e de um Mestrado em taxonomia e biodiversidade, Amoret trabalhou com vários grupos de insectos, tais como moscas-das-flores e vespas, e passou três anos a re-escrever o Guia de Pulgas Britânicas (The Handbook of British Fleas). Procurando um trabalho mais aplicado, que conduzisse a uma carreira em entomologia, passou então para as ciências forenses. Está a tirar um Doutoramento em part-time no King’s College London, para além de trabalhar em casos de entomologia forense no Museu de História Natural de Londres. “Penso que o mais interessante neste emprego é a variedade e a incerteza. Nunca se sabe quando o telefone vai tocar. Cada caso é diferente, e suponho que uma das partes mais difíceis é nunca saber bem com que vamos ser confrontados. Trabalhar com casos levanta constantemente novas questões, e faz-nos perceber quão pouco sabemos, mesmo acerca do mais comum dos insectos. Por exemplo, há um par de anos, pediram-nos para visitar um local de crime para procurar cápsulas de pupas. O problema era que o crime tinha dois anos, e não existem estudos sobre quanto tempo as cápsulas de pupa permanecem intactas no solo. Então, comecei um estudo em que enterrei um grande número de cápsulas de pupa vazias, e ao longo de três anos vou desenterrando. Os resultados deverão indicar qual a taxa a que as cápsulas de pupa se degradam ao longo do tempo, pelo menos num período de três anos. Assim, da próxima vez que nos confrontarmos com um crime “antigo” estaremos mais capazes de ajudar. O trabalho mais fascinante que já fiz foi provavelmente na Instalação de Pesquisa Antropológica (Anthropological Research Facility), também conhecida como Quinta de Corpos (Body Farmw1), na Universidade de Tennessee em Knoxville, EUA. É o único sítio no mundo onde se pode estudar a decomposição de humanos, por isso é uma oportunidade fantástica para estudar a sucessão de insectos em humanos, em vez de porcos, como geralmente fazemos. Não existe nenhum caminho óbvio para entrar na entomologia forense, mas creio que ser primeiro um entomólogo e depois enveredar pela ciência forense é a forma certa de o fazer. O treino e as capacidades de um entomólogo são necessários para compreender a ecologia e comportamento dos insectos com que se está a lidar.” Referências da Internet w1 – The Body Farm Recursos Aconselhamos os leitores interessados em entomologia forense a consultar as seguintes publicações e websites para mais informações: Byrd JH, Castner JL (eds; 2000) Forensic Entomology: the Utility of Arthropods in Legal Investigations. Boca Raton, FL, USA: CRC Press Catts EP, Haskell NH (eds; 1990) Entomology and Death: a Procedural Guide. Clemson, SC, USA: Forensic Entomology Associates Erzinçlioglu Z (2000) Maggots, Murder, and Men: Memories and Reflections of a Forensic Entomologist. Colchester, UK: Harley Books Goff ML (2000) A Fly for the Prosecution: How Insect Evidence Helps Solve Crimes. Cambridge, MA, USA: Harvard University Press Greenberg B, Kunich JC (2002) Entomology and the Law: Flies as Forensic Indi-cators. Cambridge, UK: Cambridge University Press Smith KGV (1986) A Manual of Forensic Entomology. Ithaca, NY, USA: Cornell University Press American Board of Forensic Entomology European Association for Forensic Entomology North American Forensic Entomology Association Opinião Este artigo é aliciante e fascinante para todos os professores, pois trata a inevitável degradação após a morte. É uma janela interessante para a área das ciências forenses, bastante populares hoje em dia, como se nota pelas várias séries televisivas sobre o assunto. A linguagem e conteúdo do artigo são de fácil compreensão. A perspectiva biológica (entomológica) é particularmente fascinante, uma vez que a abordagem mais comum deste tópico é bioquímica ou médica. Este artigo demonstra que tem que se trabalhar de uma forma inter-disciplinar para resolver crimes. O Sherlock Holmes está realmente morto – em vez disso, o cientista, o polícia e a equipa legal são todos necessários. Talvez sirva de inspiração para os professores trabalharem mais frequentemente de forma interdisciplinar? Infelizmente, qualquer actividade de sala de aula com carne e varejeiras seria demasiado nojenta e mal-cheirosa, mas se alguém criativo tivesse uma boa ideia para minimizar o mau cheiro, seria uma tarefa fascinante para os alunos. Comentário do Editor Porque não aceitar o desafio de Paula Starbäck: consegue criar uma forma de ensinar entomologia forense na escola? Envie as suas sugestões para editor@scienceinschool.org e publicaremos as melhores ideias.
|
Science in School email alert |
||||||||||||
| IMPRINT | CREDITS | COPYRIGHT | DISCLAIMER | [ISSN 1818-0361] |